domingo, 21 de junho de 2026

1720




O SECRETO

Todo o meu corpo lateja, são minúsculos coraçõezinhos em toda parte.  Pequenos em tamanho, mas potentes para pulsar.  É a vida cobrando do corpo ou o corpo cobrando a vida(?) … os rascunhos rasgados, os sonhos irrealizados, os desejos mortos, ainda no berço.

Mas a alma sabe que há, e os guarda em segredo: rascunhos inéditos, sonhos imorredouros e desejos inconfessos.


quarta-feira, 8 de abril de 2026

 1719





EL DUERME

Mi amor duerme en silencio. En un silencio que ni siquiera las palabras pueden alcanzar, aunque se pronuncien. Vive anclado en el pasado, porque le han negado el futuro. El revive en los recuerdos de momentos de descubrimiento. Sobrevive gracias a respiraciones profundas que, en silencio, le aportan oxígeno.


domingo, 22 de março de 2026

 1718



CARTA À VIDA

Hoje, colho mais uma primavera.  Para que isso fosse possível, foi preciso que eu soubesse suportar os rigores do frio, compreendesse as oscilações de temperatura e aceitasse as inclemências do calor - nada mais justo!

Foi preciso que muitos viessem antes de mim, abrindo o caminho e preparando o momento de eu poder existir.  Sou grata a todos meus predecessores, para que eu pudesse estar aqui.

Foi preciso que muitos outros cruzassem ou tangenciassem a linha da minha história, para me ensinar e me fazer crescer.  Sou grata a todos, que de uma forma ou outra deixaram lembranças por terem ido, e aos que ainda permanecem comigo.  

Gratidão aos meus irmãos de sangue e aos meus irmãos em espírito; nunca houve ninguém com quem não tenha aprendido algo.  Tudo nos serve de exemplo, bom para ser copiado e mau para ser evitado.

Obrigada pela infinidade de cores e sabores, por todos os tipos de amores; pelas horas compridas de tristeza e pelas breves de alegria, sei que ainda virão muitas, de todo tipo.  

Sou grata por todos os dias, por este em especial e por todos os outros que terei!

Gratidão à vida, a todas essas intempéries vencidas, a todos esses ramalhetes colhidos, e a essa mesma vida que flui depois da minha - a vida que recebi e passei adiante.









terça-feira, 10 de março de 2026

 1717



COMO ANTES

A manhã estava calma.  As folhas das árvores choravam o orvalho, que tinha caído sobre elas, mais cedo.  Não havia pressa no tempo, e o silêncio dormia numa rede, balancando-se de um lado a outro, com a brisa.  

Os passos quase sem pressa, de quem se aventurava, a andar 'indo e vindo', não eram audíveis.

Bem ao longe podia-se ouvir um cãozinho latindo.  Não se ouvia nenhum galo cantando, porque não se fazem mais 'galos cantantes', como antigamente.  Não se fazem 'antigamentes', como antes.



segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

1716




 OLHOS DE VER 

As nuvens eram esculturas de um material nobre e brilhante, de uma procedência desconhecida, porque não se assemelhava a nada que conhecemos.  Era um misto de metal, antes líquido, que condensou-se em formas lindas dentro de bordas um pouco mais escuras, mas ainda assim, brilhantes e de mesma consistência.  

Não tenho certeza, se não eram vaporosas e ao mesmo tempo tangíveis.  Acho que poderiam ser as duas coisas e mais.  As formas abstratas não me instigaram para procurar desenhos nelas, apenas apreciei seus formatos.


Era preciso contemplá-las, antes que voltassem a ser líquidas, novamente. O que poderia acontecer a qualquer momento, sem deixar nenhum fragmento como rastro.


Estavam ali, sustentadas por fios invisíveis, mas muito fortes, capazes de garantir toda aquela beleza colossal.  


Para quem teve olhos de ver, foi possível admirar todo aquele esplendor!


segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

1715




FLOR DE OUTONO

Ela nasceu num tempo em que as folhas já estavam amareladas.  Nenhuma outra mais, se viu despontar.  Foi como se estivesse perdida nas estações, atrasada ou mesmo adiantada; porém nada impediu que o fizesse de maneira igualmente bela e perfeita, com o mesmo ímpeto e graça de uma florescência  primaveril.  Reinou sozinha em suas cores, sobressaiu-se, em meio ao contorno envelhecido que o outono lhe proporcionou. Ela veio expressar um amor, nascido no outono da vida, e que nem por isso, deixou de ser verdadeiro e forte.



terça-feira, 6 de janeiro de 2026

1714






SÍNTESE E ATITUDE


Só seguirei adiante, se me despojar de tudo o que 'não foi possível'.  As frustrações que arrasto comigo, pesam nas minhas costas e atrasam o meu passo.  O que 'não aconteceu' transformou-se em carga.  


Esperei demais de mim mesma, almejei algo que estava para além 'da minha possibilidade', do meu controle ou do meu real propósito.


Perdoar-me, primeira atitude - por não poder dar 'satisfação' às expectativas, pois fui feita para carregar apenas aquilo que conquistei, e que apesar de todo empenho, muita coisa ficou só na intenção, sem concretização.  "Mirei no que vi e acertei no que não vi" - é essa, a síntese. 


As coisas que 'não vieram', que fiquem no tempo e no espaço em que eu as criei. Quanto a mim, é preciso caminhar mais leve!



sábado, 29 de novembro de 2025

1713




QUEM É O DONO?

Não existem amores impossíveis. Todo amor carrega em si a possibilidade de ser.  E sendo um sentimento espontâneo, não depende de ser aceito ou correspondido, para continuar sendo.  Ele é.  

Quando nasce, expande-se para fora do peito, num movimento de ida.  Caso não encontre retribuição, acostuma-se a dar-se, simplesmente, porque não caberá mais no lugar de onde saiu.

O amor é de quem o sente, e não a quem se dirige.  E isso muda tudo.


imagem __ christian schloe


sexta-feira, 31 de outubro de 2025

 1712



AMORES-PERFEITOS

Tenho para oferecer um amor imperfeito, que ainda sobrevive da presença, conta com o  toque e espera pelo olhar.  Quer ser aceito do jeito que ele é!  Porque na ausência ele desfalece, na distância se cala, no silêncio se recolhe.  Engana-se, quem pensa que esteja a morrer, ele apenas começa a alimentar-se de si mesmo.


Por enquanto, a perfeição é só para as flores!





quarta-feira, 22 de outubro de 2025

 1711



MADREPÉROLA


A cada manhã, na disposição de continuarmos a partir de onde paramos ou de reiniciarmos de outra forma, e dessa vez fazermos melhor do que antes; os grãos de areia que nos ferem os olhos, a pele, o coração, são revestidos com o nácar valioso da nossa superação.


Porque a dor, ah a dor!  Sempre existirá.  E o que dói em mim, pode não doer em ti, e não há como descrever com precisão a dor, só sendo sentida, é que saberemos o que é.


Levando em conta a sensibilidade de cada um ou a capacidade de suportar; a despeito de todo cuidado, de toda atenção que se possa ter para evitá-la, mesmo assim, ela vai doer.


Algumas dores, sabemos identificar onde dói, em qual parte do corpo; outras, parecem doer em alguma parte inexistente dele, e essas são as dores da alma.


A cada recomeço, colocamos mais e mais camadas de nácar.  Somos fazedores de pérolas


sábado, 4 de outubro de 2025

94






UM OLHAR SOBRE O COMPORTAMENTO HUMANO

CAFÉ PROFUNDO


Tenho saudade do tempo, em que a distância entre duas pessoas era só uma questão física.  Lembro ainda, de quando ouvíamos uma voz ‘viva’, do outro lado da linha telefônica - a nos dizer sim ou não.  Penso, que se ainda existem pessoas educadas e prestativas, elas são as de mais idade.  Difícil encontrar quem se permita uma conversa de olhos nos olhos e de peito desprotegido.  


A tecnologia está ao nosso favor, mas quando deixa de atender às nossas necessidades, por algum motivo, não há como acessar o que é preciso.  Os meios de comunicação mais atuais facilitam a conexão verbal, o reencontro de velhos amigos, porém muitas vezes, essa conexão se mostra rasa demais.


Sinto a distância de quem está perto.  Desespero quando ao tentar falar com uma ‘máquina’, ela não me entende, porque o que eu desejo não se encaixa em nenhuma das suas opções.  Em contrapartida, vejo um crescente desinteresse no atendimento pessoal, e no lugar de fazer o que são pagos para fazerem, na verdade nos prestam um desserviço.  Quase não se veste mais nenhuma ‘camisa’.


Nas conversas de hoje, nem é mais preciso que o outro revire os olhos - sinalizando-nos indiferença ao assunto, simplesmente, ele abaixa seus olhos para o que tem nas mãos, porque afinal as mídias são muito mais atrativas.


Onde foram parar, os longos e largos goles de café profundo, entre amigos?  Ficaram no passado, pois cada um tem suas urgências, portanto sem tempo para ser perdido num café.  Quantas vezes, só de falarmos a respeito de alguma questão nossa, encontramos as respostas, sem que o outro dissesse absolutamente nada?  Isso era muito terapêutico!


Nos acostumamos à força, a estarmos sós, à deseducação, aos monólogos internos, aos desserviços que nos prestam, a cortarmos o assunto ao meio, a tomarmos nosso café sozinhos.  Trocamos tudo por ‘informações’, as quais somos incapazes de reter na sua totalidade, e de maneira nenhuma estão nos ajudando a convivermos melhor.




sexta-feira, 5 de setembro de 2025

1710


HORAS E DIAS

Não são as nuvens que passam, mas o planeta que gira.  Não é o fardo que pesa, mas o valor que dou às coisas da vida.  Não é a pressa que deixa cru* o que devo viver, mas a ausência de mim, no momento presente.  Não é o medo que paralisa, e sim a minha falta de fé. Não é a dor que apavora, mas desconhecer sua origem.  Não é a culpa que me morde a alma, mas a responsabilidade pelas consequências às minhas escolhas.


De todos os cálices, dos quais sou forçado a sorver, o mais penoso de engolir, é aquele ofertado por mãos conhecidas, e ainda assim, sei que é preciso aceitar seu amargor.  De todas as horas e dias escuros, que sou obrigado a atravessar, os mais tristes são aqueles em que me sinto sozinho.



* Do ditado popular : "O apressado come cru"

domingo, 17 de agosto de 2025

1709


 



ENTRE A LUZ E A SOMBRA


Quando tento barrar a luz, para que ela não passe por mim, e assim ofereço o meu corpo como escudo, crio uma sombra infinitamente maior, do que o tamanho que eu tenho.


Como a luz é capaz de projetar-se em leque, e ganhar força e espaços inimagináveis; a sombra também pode adquirir uma proporção fenomenal, muito além do que se possa supor.  Estarei então, sendo obstáculo para que a luz se propague e atinja lugares onde nada se vê, onde nada se perceba ou se conheça, mas onde todo sofrimento existe.


quinta-feira, 10 de julho de 2025

 1708




TEMPO DE REFLEXÃO

Deixei doer o quanto precisou.  Não a substituí por qualquer coisa efêmera, não amordacei sua boca, só olhei-a nos olhos e lhe prestei atenção.  Porque ela deve gritar, xingar e esbravejar; até maldizer se for o caso, até sussurrar, se assim o quiser.  Não importa de qual linguagem se sirva, para se fazer clara, devo acolhê-la e dar-me tempo de reflexão.. Pois ela é a entidade mais gabaritada, ela e só ela conhece as origens de si mesma.  Reivindica ser escutada, olhada, sentida, compreendida, antes que se dê por satisfeita.  Talvez ela nem acredite em milagres, mas o melhor dos unguentos é ver-se legitimada.


A dor?  Ainda dói e vai doer, mas dói diferente, porque dói entendida.



arte __ brendda lima


quarta-feira, 9 de julho de 2025

1707




PLÁGIO

Senti meus pés presos ao chão, como se tivessem perdido a forma e assim,  se encontrassem incorporados ao solo.  Num esforço descomunal de concretizar um passo sequer, me vi atolado na substância indefinida e pegajosa, que havia se transformado em armadilha.  Eu não afundava, tampouco conseguia andar, dominado por uma estranha força, que me mantinha cativo na inércia.  O desespero era patente, sob o medo de ficar para sempre enraizado, num espaço nem um pouco agradável, e que poderia tomar conta de todo o meu corpo.  Impossível precisar, por quanto tempo já se arrastava a agonia.

Então, numa longa e profunda transpiração da alma, saindo de uma irresignada trajetória,  retirei minha atenção dos pés e me dei conta de que havia muito mais do que chão.  Plagiando os pensadores e filósofos, que vieram séculos antes de mim e certamente, passaram pelas mesmas dores e incertezas; percebi que há céu para ser respirado, há águas doces para saciar a minha sede, há matas para acalmar as minhas vistas, há montanhas para que eu possa ter uma visão mais ampla de tudo.  Do alto pude ver as águas salgadas, que puderam curar as minhas feridas.


quarta-feira, 2 de julho de 2025

 1706




FENDAS DE TODOS OS TAMANHOS


Todos nós trazemos fendas não visíveis.  Rachaduras profundas, outras menos. Por elas entra ou sai a tristeza; entra bem menos do que ‘aquilo que precisamos’, e talvez por serem tão fundas, dificilmente ficarão cheias.  Mas só nos damos conta de suas existências, quando elas direcionam as nossas escolhas, para caminhos que se revelam tortuosos - miramos no que vemos e acertamos no que não queríamos - é essa a dinâmica do olhar adoentado que temos.  E a cada escolha desacertada, somos forçados a ‘revermos’ a blindagem que nos reveste, de descobrirmos o porquê, de nos deixarmos apoderar por sentimentos e emoções alheios e sermos sequestrados dos nossos verdadeiros sentimentos.  Vivendo numa miscelânea de sensações confusas, nos vemos obrigados a ‘degustar’ uma salada desagradável ao paladar e indigesta.


Como seres fragmentados, andamos por aí, com feridas a céu aberto, expostos a todo tipo de contaminação, a todo tipo de invasão, deixando sair o que é bom, sujeitos às doenças da alma. Tanto quanto, as fendas da geologia podem causar terremotos e explosões; essas fendas que existem em nós, também podem desencadear choques internos, convulsões emocionais e implosões.



domingo, 29 de junho de 2025

1705





HIPÓTESE E TESE


Perdido entre os pensamentos, que me fazem ‘sentir’ sentimentos correspondentes ao que penso.  Sentindo, o que me faz pensar pensamentos equivalentes ao meu ‘sentir’, proporcionais em peso, volume e intensidade. Nesse círculo vicioso, onde percorro a linha curva, que retorna ao ponto de início, corro atrás do meu próprio rabo, e invariavelmente, quando o alcanço, volto a mordê-lo.  


O que deveria ser apenas um ciclo, do qual eu me libertaria naturalmente, torna-se armadilha, que me mantém subjugado às condições insalubres, de repetição de ideias e re_sentimentos.  


A inteligência, a percepção e a intuição, sempre atuam a nosso favor.  Elas nos fazem observar, analisar as situações e formar opinião, mas como nos falta confiança no nosso ‘taco’, e por medo de aceitar o que apesar de muito claro, é também doloroso; preferimos o ‘benefício da dúvida’.  Elaboramos hipóteses, que enquanto apenas hipotéticas, quase não machucam, ferem superficialmente.  Quando são constatadamente observadas, e se tornam tese, são devastadoras, cortam profundamente, revirando a lâmina dentro da carne.


Somos obrigados a velar, para depois enterrar uma expectativa, a respeito de algo ou alguém.  Aos poucos, vamos tendo que dizer adeus a tudo que virou tese, a aceitar à realidade, que já havia sido visualizada por nós.  Entramos no processo de luto, onde enterramos muito mais do que nossas expectativas, enterramos pessoas, sonhos; enterramos um pouco de nós mesmos. Só o quê não conseguimos enterrar: as nossas memórias, os nossos sentimentos; mas eu acredito que talvez, tudo seja uma questão de tempo.  


Transformar um círculo em ciclo, requer de nós sustentação, para atravessarmos o período de luto; coragem de darmos não um passo, mas um impulso, em direção a outro ciclo, novo, mais elevado, consciente, maduro.  Mesmo que não sintamos o chão, mesmo que seja dado no escuro - o que nos move é a necessidade de fecharmos um círculo de sofrimento.




quinta-feira, 26 de junho de 2025

1704




ENTRE O CORPO E O SILÊNCIO 

Eu sussurro, como num pacto que não devo quebrar.  

Aceito e acolho o que chegou até minhas mãos, porque me fez ser quem eu sou. 

Entrego, o que ainda não 'pôde' ser. Aprendi que a transformação só acontece fora da vigilância, sem armadura e no recolhimento.  É quando, solto a rédea da pretensa e ilusória tentativa de controle.

Confio, que o que veio, tinha endereço certo.  Reconheço que minha mente tem medo, mas a minha alma conhece a confiança e outras tantas virtudes. O sofrimento é abandono interior e a mente precisa escutar o que a alma diz, porque ela fala - ah! e como fala! Para ouvi-la, devo calar os pensamentos, pois fazem muito barulho, só assim o diálogo pode acontecer.

Agradeço ao universo, pelas inúmeras dádivas, pois agora ele me escuta, depois de me despojar da falta, da queixa, do descontentamento.  Só a gratidão é capaz de converter a 'falta' em presença, em algo muito mais valioso - como um bálsamo que cuida do que estava partido, transmuta e remodela a minha realidade, numa versão mais favorável a mim mesmo.


arte __ agnes cecile

quarta-feira, 11 de junho de 2025

1703




UM DENOMINADOR COMUM


Até o mais ferrenho crente no diálogo, aquele que acredita no poder das palavras, de esclarecer e encurtar distâncias - até mesmo ele, será obrigado a admitir, em algum momento, a inutilidade delas.


Não que ele desacredite ou duvide do significado de cada uma, mas ele sabe, que para haver comunicação é primordial que as partes a desejem.


Não há denominador comum ou acordo ou entendimento, a que se possa chegar, quando há a negação da existência de desencontro, ainda quando a questão já se encontra cristalizada de um dos lados.


Frustrado, em primeiro lugar consigo mesmo, mas depois percebe que não é falha sua, e que por mais eloquente que seja, é impossível tocar, nem que seja de leve, quem não deseja ser tocado.  Alguém que nunca baixa a guarda, rechaça qualquer tentativa de aproximação, mantém-se categórica e hermeticamente fechado em sua razão.  Talvez tema, que uma vez aberta, nunca mais a consiga fechar.


quarta-feira, 4 de junho de 2025

1135

CANTAR E CONTAR
26/02/20


Amélia morreu de inanição, depois de consumir-se a si própria,
numa autofagia. Enrolada e acocorada, foi-se, mortificando sua carne, a um canto, sem um pio, sem comida, sem agasalho,
sem teto, sem reclamar, roxa e ressequida.
Se achava graça de sua desgraça, não se sabe,
talvez tenha sido puro sadismo, de quem dava voz à melodia,
por sinal, uma voz bem desumana!
Mas acho que foi mesmo desamor,
dela, para com ela mesma, sem nada exigir,
ou levantar-se para seguir adiante ...
antes mesmo de ser um descaso,
da parte de quem dizia, que a amava.
Não, não a amava! A odiava!
Se amasse, a respeitaria como ser vivente,
como ser livre, que escolhe ficar, podendo ir.
Ela não seria retratada como uma prestadora de serviços,
cúmplice da preguiça de quem a descreve, dentro de uma inércia de causar nojo.
Ele lhe traria os melhores quitutes, flores,
lhe daria as mais lindas vestes, uma casa aconchegante,
faria dela uma mulher de verdade, mesmo(!)
e não um espectro com alguma serventia.
Que bom que ela tenha morrido, pois não era de verdade,
nem sequer era mulher, sua vida foi uma apologia aos maus tratos.
Quem a cantou, deveria se envergonhar, de não ter pensado
numa letra mais adequada ao romance que tentou contar,
se é que foi mesmo essa, a sua intenção!
arte | agnes cecile