sábado, 30 de janeiro de 2021

1293





DO MESMO GARIMPO


O tempo atravessa, 

por dentro da minha pressa

e a vida passa, sem que eu veja.

Eu sempre me pergunto:

Se a maldade é de geração espontânea?

Se ela é pedra do nosso garimpo,

que vira um jeito vesgo de ler as linhas

e um costume bravo de responder a elas?!


E então, a vida retruca - ela revida!


Ainda questiono:

Se a boa vontade vem do mesmo garimpo,

cria um modo calmo, de se olhar pras linhas

e se torna um jeito leve, de levar a vida?


E a vida responde e nos corresponde ...

ela nos olha com a mesma calma,

ela nos leva, com a mesma leveza!



30/01/21







terça-feira, 26 de janeiro de 2021

1292

TÃO REAL QUANTO

Moras em longínqua ilha, sumida em algum ponto do oceano hipotético, sem coordenadas definidas.

Incontáveis vezes, tentaste com fôlego e braços, alcançares a costa do grande e real continente; mas pelo mesmo número de vezes, foste visto, desfalecido e boiando, na confluência das águas do esquecimento, com as correntes frias da solidão - próximas ao teu lar - te devolvendo ao ponto de partida.

A ilha tem o tamanho certo, para que não morras de fome, sede ou frio ... ao dormires sob o relento da noite - para permaneceres a salvo na fantasia. Mas invariavelmente, te demoras por madrugadas, sentado à beira da praia ou sobre uma rocha, sonhando com o grande continente, contemplando a distância que os separa, adivinhando-lhe os contornos de sua geografia e desejando ter a chance, de um dia, seres tão real quanto ele.

26/01/21


segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

1291




ANTES MESMO

Sentimento, já diz ... é algo que se sente, antes mesmo de ser pensado e entendido ... e anterior a isso ... não se sabe, que se podia senti-lo.

Coisa de pequena brisa ou um vento forte, vindo tocar de leve ou com vigor, uma corda de instrumento, às vezes, escondido dentro de nós ... que antes, nem mesmo, desconfiávamos da existência.

Não tem como evitar, que o vento não sopre ou que a brisa não chegue a roçar as cordas sensíveis; que por sua vez gemem e nos falam, em sua linguagem tácita e cheia de significados; fazendo ressoar por todo o corpo e chegar a todas as células nervosas - a mensagem - transportada pelas sensações involuntárias, traduzida e codificada em emoções.

Os sentimentos fogem ao controle da mente, como o vento foge ao controle da nossa vontade.  Outra coisa é o pensamento - lugar para onde as nossas sensações nos levam.  Sobre ele, podemos exercer todo o poder, ele é que é nosso e não, nós dele.

 Existem lugares, onde o pensamento nos mantém, que não nos são agradáveis e  quando são, o são, apenas por algum tempo ... e é deles que falo.  Depois disso, nos causam o maior desconforto, do qual estaríamos livres, caso desconhecêssemos o sentimento, que nos levou até eles.

E já que, sentimentos são incontroláveis, que parecem ter vida própria, que é inevitável tê-los ... é aos lugares, aos quais somos levados depois, que devemos, nos recusar a ir, ou se formos, é preciso ter a decência, de não permanecermos neles, até mesmo por uma questão de hierarquia e inteligência.

25/01/21





sexta-feira, 22 de janeiro de 2021


1290






A CASA E A CASCA
22/01/21


O sonho liberta, faz a alma voar, acima dos muros que a mantém cativa. A consciência grita. O medo corta as pernas da esperança e enfraquece seus braços.  A culpa frita a alegria, na chapa quente do ego.

A personificação, é quase que automática e natural, quando não conseguimos lidar com os fatos, de uma maneira adulta, consciente.  Então, procuramos arranjar justificativas, para as coisas que dentro de nosso entendimento, não são explicáveis.

Um soco de realidade, é o que a vida nos dá, quando a alma retorna à terra.  Cada vez que ela repisa o chão, sente mais forte o seu peso em ouro, ou em outro metal qualquer.

Todo problema mora na mente; toda dor - é na carne que arde - tem como casa, o coração e tem a raiva, como casca.


domingo, 17 de janeiro de 2021

1289



PARA ALEGRIA E BELEZA

17/01/21


Dera-me conta do sentimento que brotava no chão do meu coração.  Não me lembro de tê-lo semeado, tampouco lembro de adubar o terreno.  Foi como se eu me visse numa inauguração, sem ter recebido um prévio convite, sem que soubera o que estaria sendo exposto.

Ainda não sei, se foram os ventos da vida que o trouxeram ... ou se foram os caminhos que tomei, que me aproximaram da semente, que ora nascida do solo, fora antes, um grãozinho amarronzado, quieto e tímido, por algum tempo; que aos poucos foi abandonando o aconchêgo da terra, rasgando a fina camada que o protegeu, no início cabisbaixo e fraco; para se tornar altivo, ereto e de braços voltados aos céus e à luz.

Talvez, o grão já estivesse lá, há algum tempo, inerte ... mas só pôde germinar, quando encontrou as condições necessárias.  As mesmas condições, que adversas, não foram capazes de fazê-lo desaparecer.

Hoje, eu o mantenho, digamos assim 'in vitro' - não exposto aos olhos de fora, mas o conservo, para alegria do meu coração e beleza dos meus próprios olhos.





sábado, 16 de janeiro de 2021

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AS ÁGUAS 

16/01/21

Hoje, nenhuma ideia me ocorre em especial, mas eu sei, que se futucar um pouquinho - as águas aparentemente calmas, da minha mente - posso turvar sua suposta transparência, por um bom tempo.  Se alguma pedrinha for lançada sobre sua superfície límpida, vou me deparar com alguns pedacinhos de sujeira, que sobem à tona, como pequenas nódoas espalhadas, aqui e ali, tornando opaca, a  película que separa a água do ar ... e que já não refletirá mais, o brilho do dia claro.

Vou deixá-las como estão - as águas - tranquilas e inalteradas, para que eu também possa permanecer serena e radiante, quanto ao dia de hoje!



sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

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BEATRIZ

15/01/21


Dizem as línguas: "ela virou atriz"

pois não sente o que diz!

A quem, muito bem a conhece

o que ela mostra não convence

o que fala, é apenas pequena parte ...

deixa sua estória fazer-se à la carte!

Beatriz, é seu primeiro nome

indefinido fica seu pronome ...

O caso vira impessoal e relativo 

em seu discurso subjetivo 

de elemento facultativo!


Grande engano de quem pensa

que ao final, a mentira compensa

que toda atriz não sente o que diz!

É bem intensa, essa tal 'Beatriz'

e bem se sabe - nada desdiz!




terça-feira, 12 de janeiro de 2021

1286




INCERTAS VARANDAS

12/01/21


Onde andas tu beija-flor?

Tu e a tua pressa multicolor ...

fazendo sussurros, aos ouvidos da flor

naquele beijo, de conhecido sabor!?

Por qual jardim é que andas?

Moras em incertas varandas?

Quais segredos desvendas?

Por qual flor te encantas?

Que àquela flor, que anda tristonha

alguma alegria, se contraponha!

Afaste-lhe a preguiça enfadonha

e que a esperança se sobreponha!



domingo, 10 de janeiro de 2021

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AO MESMO MAR
09/01/21

Achegou-se, muito perto, tocou-me profundo e fez-se parte do pensamento, do sonho.  Temi que eu ficasse subjugado e depois, de mim se afastasse, me deixando desconexo, por uma atenção retirada ou imerecida.  

Ou que fosse uma delicadeza finita, que com o tempo acabaria resfriada, caída no esquecimento, me devolvendo ao mar das ondas vorazes.  Foi um medo justo e natural, de quem se arrisca a abraçar um destroço à deriva, quando se está longe da costa e que a qualquer momento pode afundar.  Não que considerasse a você, como sendo um destroço inerte a vagar, mas como alguém, que me oferecia braços vigorosos, quando os meus já estavam cansados de nadar.

Foi tudo isso, intenso e cativante; arrebatador e ao mesmo tempo, asfixiante.  Estou de volta ao mesmo mar, com outras ondas, talvez, não tão violentas, porém ameaçadoras, que testam a minha capacidade, de me manter acima do nível de suas águas, por fortes e rápidos movimentos, mantidos por longas e arquejantes respirações.

sábado, 9 de janeiro de 2021

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SE ASSIM NÃO FOR

09/01/21


 “Buscas ouro nativo entre a ganga da vida. Que esperança infinita no ilusório trabalho… Para cada pepita, quanto cascalho." 

Helena Kolody 


É preciso conservar os olhos em perfeito estado, para poderem avistar - a seu tempo - a pepita que se esconde no meio do cascalho.  Pois o cascalho deve fustigar apenas as mãos, no garimpo exaustivo ao sol causticante, com a maior parte do corpo mergulhado em águas escuras de sedimentos.  Devemos deixá-lo ser levado pela correnteza e não, que se acumule em pilhas inúteis, às margens do rio da vida. 

Os olhos físicos e também os do coração, devem permanecer puros e livres da sujeira, encontrada na bateia e nas próprias águas onde estamos imersos.  Se assim não for, não será possível reconhecerem o brilho que deve reluzir ao mesmo sol que torra a pele, aos mesmos olhos que ardem com o suor do rosto, ao mesmo coração afligido com os anteriores insucessos.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

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AO MAR E À TERRA

06/01/21


Não sei dizer, se a verdadeira vida, é aquela que vivo por fora ou a que vivo por dentro.  O que faço - todos veem, mas o que sinto - é só meu.  Quantas renúncias silenciosas, das quais ninguém soube que fiz, e que pelas tantas vezes que o fiz, caídas no esquecimento, permanecem secretas, existindo e guardadas numa gaveta.  E eu me desencontro no espaço entre as duas vidas, sem saber muito bem, o que fazer, juntar ou sobrepô-las e ver como fica, se formam uma inteira, se viram uma só.

A de dentro, sempre sendo mais contempladora de meus anseios - para onde eu fujo - quando as coisas ficam demasiadamente chatas.  Como vivo, determina a minha posição na vida, mas o que vai em mim, é exato o que sou!

O cansaço veio, muitas vezes, por fazer e fazer, repetidamente, aquilo que já era sabido, que não mudaria nada - e que não seria notado, a não ser por minha própria consciência - que sempre quis ser leve.  E o meu sorriso da aceitação, ainda que falso, um e outro, sempre persistentes, me fizeram esperar por novos dias e tentar transferir o incômodo peso do desapontamento, para a vida de fora - que na verdade permeava os dois lados: fora e dentro.

Dói mais na alma, do que na pele - não ir em busca do que quis e privar-me da satisfação, que me teria dado.  Num sentimento escondido, na hora imprópria, soterrado em imaginação, de certa forma mentido -  pois a cara de paisagem chegou a convencer do contrário.  Foi a alma que se privou e não a carne, quando deixei ir ... Nunca saberei, se era mesmo oportunidade ou uma simples perdição - se foi juízo ou covardia de minha parte.

Ao fazer listas de mercado, desejei encontrar em suas prateleiras, aquilo que não se encontra nelas ... e se acaso encontrasse, imagino que teria um preço impagável por mim, no entanto, seria muito bom saber que existia.

De vez em quando, é óbvio que haja um certo desprendimento da minha essência, para fora do frasco rústico - numa música ouvida, numa paisagem contemplada, numa poesia lida ou feita por mim; sem o quê, me teria sido impossível, prosseguir e até sobreviver, com sanidade e decência.  A lua nunca se moveu um só milímetro, mas eu? ... cansei de ir até ela e voltar ... por incontáveis vezes!  Tão logo, perdidas as minhas asas, eu caía de cara com a realidade – sobre uma plataforma concreta e dura.  

Parado em terra firme, sou um marco, não deixo de avistar e me encantar com o breve movimento das águas, feito pelos barcos que partem.  Reconheço o contorno de um continente, que embora submerso em águas, é sempre o mesmo, contínuo e ligado ao outro lado, pelas mesmas águas que separam seus lados opostos e distantes – onde, os barcos que partiram, vão aportar.  Ah! ... quanto céu existe entre os dois pontos!

"Nem tanto ao mar, nem tanto à terra?"  Pois no meu caso, foi muito mais à terra!



'Surprises'  Ibrahim Maalouf

https://www.youtube.com/watch?v=FKIQ8BBcI6I