terça-feira, 10 de março de 2026

 1717



COMO ANTES

A manhã estava calma.  As folhas das árvores choravam o orvalho, que tinha caído sobre elas, mais cedo.  Não havia pressa no tempo, e o silêncio dormia numa rede, balancando-se de um lado a outro, com a brisa.  

Os passos quase sem pressa, de quem se aventurava, a andar 'indo e vindo', não eram audíveis.

Bem ao longe podia-se ouvir um cãozinho latindo.  Não se ouvia nenhum galo cantando, porque não se fazem mais 'galos cantantes', como antigamente.  Não se fazem 'antigamentes', como antes.



segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

1716




 OLHOS DE VER 

As nuvens eram esculturas de um material nobre e brilhante, de uma procedência desconhecida, porque não se assemelhava a nada que conhecemos.  Era um misto de metal, antes líquido, que condensou-se em formas lindas dentro de bordas um pouco mais escuras, mas ainda assim, brilhantes e de mesma consistência.  

Não tenho certeza, se não eram vaporosas e ao mesmo tempo tangíveis.  Acho que poderiam ser as duas coisas e mais.  As formas abstratas não me instigaram para procurar desenhos nelas, apenas apreciei seus formatos.


Era preciso contemplá-las, antes que voltassem a ser líquidas, novamente. O que poderia acontecer a qualquer momento, sem deixar nenhum fragmento como rastro.


Estavam ali, sustentadas por fios invisíveis, mas muito fortes, capazes de garantir toda aquela beleza colossal.  


Para quem teve olhos de ver, foi possível admirar todo aquele esplendor!


segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

1715




FLOR DE OUTONO

Ela nasceu num tempo em que as folhas já estavam amareladas.  Nenhuma outra mais, se viu despontar.  Foi como se estivesse perdida nas estações, atrasada ou mesmo adiantada; porém nada impediu que o fizesse de maneira igualmente bela e perfeita, com o mesmo ímpeto e graça de uma florescência  primaveril.  Reinou sozinha em suas cores, sobressaiu-se, em meio ao contorno envelhecido que o outono lhe proporcionou. Ela veio expressar um amor, nascido no outono da vida, e que nem por isso, deixou de ser verdadeiro e forte.



terça-feira, 6 de janeiro de 2026

1714






SÍNTESE E ATITUDE


Só seguirei adiante, se me despojar de tudo o que 'não foi possível'.  As frustrações que arrasto comigo, pesam nas minhas costas e atrasam o meu passo.  O que 'não aconteceu' transformou-se em carga.  


Esperei demais de mim mesma, almejei algo que estava para além 'da minha possibilidade', do meu controle ou do meu real propósito.


Perdoar-me, primeira atitude - por não poder dar 'satisfação' às expectativas, pois fui feita para carregar apenas aquilo que conquistei, e que apesar de todo empenho, muita coisa ficou só na intenção, sem concretização.  "Mirei no que vi e acertei no que não vi" - é essa, a síntese. 


As coisas que 'não vieram', que fiquem no tempo e no espaço em que eu as criei. Quanto a mim, é preciso caminhar mais leve!



sábado, 29 de novembro de 2025

1713




QUEM É O DONO?

Não existem amores impossíveis. Todo amor carrega em si a possibilidade de ser.  E sendo um sentimento espontâneo, não depende de ser aceito ou correspondido, para continuar sendo.  Ele é.  

Quando nasce, expande-se para fora do peito, num movimento de ida.  Caso não encontre retribuição, acostuma-se a dar-se, simplesmente, porque não caberá mais no lugar de onde saiu.

O amor é de quem o sente, e não a quem se dirige.  E isso muda tudo.


imagem __ christian schloe


sexta-feira, 31 de outubro de 2025

 1712



AMORES-PERFEITOS

Tenho para oferecer um amor imperfeito, que ainda sobrevive da presença, conta com o  toque e espera pelo olhar.  Quer ser aceito do jeito que ele é!  Porque na ausência ele desfalece, na distância se cala, no silêncio se recolhe.  Engana-se, quem pensa que esteja a morrer, ele apenas começa a alimentar-se de si mesmo.


Por enquanto, a perfeição é só para as flores!





quarta-feira, 22 de outubro de 2025

 1711



MADREPÉROLA


A cada manhã, na disposição de continuarmos a partir de onde paramos ou de reiniciarmos de outra forma, e dessa vez fazermos melhor do que antes; os grãos de areia que nos ferem os olhos, a pele, o coração, são revestidos com o nácar valioso da nossa superação.


Porque a dor, ah a dor!  Sempre existirá.  E o que dói em mim, pode não doer em ti, e não há como descrever com precisão a dor, só sendo sentida, é que saberemos o que é.


Levando em conta a sensibilidade de cada um ou a capacidade de suportar; a despeito de todo cuidado, de toda atenção que se possa ter para evitá-la, mesmo assim, ela vai doer.


Algumas dores, sabemos identificar onde dói, em qual parte do corpo; outras, parecem doer em alguma parte inexistente dele, e essas são as dores da alma.


A cada recomeço, colocamos mais e mais camadas de nácar.  Somos fazedores de pérolas