segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

1715




FLOR DE OUTONO

Ela nasceu num tempo em que as folhas já estavam amareladas.  Nenhuma outra mais, se viu despontar.  Foi como se estivesse perdida nas estações, atrasada ou mesmo adiantada; porém nada impediu que o fizesse de maneira igualmente bela e perfeita, com o mesmo ímpeto e graça de uma florescência  primaveril.  Reinou sozinha em suas cores, sobressaiu-se, em meio ao contorno envelhecido que o outono lhe proporcionou. Ela veio expressar um amor, nascido no outono da vida, e que nem por isso, deixou de ser verdadeiro e forte.



terça-feira, 6 de janeiro de 2026

1714






SÍNTESE E ATITUDE


Só seguirei adiante, se me despojar de tudo o que 'não foi possível'.  As frustrações que arrasto comigo, pesam nas minhas costas e atrasam o meu passo.  O que 'não aconteceu' transformou-se em carga.  


Esperei demais de mim mesma, almejei algo que estava para além 'da minha possibilidade', do meu controle ou do meu real propósito.


Perdoar-me, primeira atitude - por não poder dar 'satisfação' às expectativas, pois fui feita para carregar apenas aquilo que conquistei, e que apesar de todo empenho, muita coisa ficou só na intenção, sem concretização.  "Mirei no que vi e acertei no que não vi" - é essa, a síntese. 


As coisas que 'não vieram', que fiquem no tempo e no espaço em que eu as criei. Quanto a mim, é preciso caminhar mais leve!



sábado, 29 de novembro de 2025

1713




QUEM É O DONO?

Não existem amores impossíveis. Todo amor carrega em si a possibilidade de ser.  E sendo um sentimento espontâneo, não depende de ser aceito ou correspondido, para continuar sendo.  Ele é.  

Quando nasce, expande-se para fora do peito, num movimento de ida.  Caso não encontre retribuição, acostuma-se a dar-se, simplesmente, porque não caberá mais no lugar de onde saiu.

O amor é de quem o sente, e não a quem se dirige.  E isso muda tudo.


imagem __ christian schloe


sexta-feira, 31 de outubro de 2025

 1712



AMORES-PERFEITOS

Tenho para oferecer um amor imperfeito, que ainda sobrevive da presença, conta com o  toque e espera pelo olhar.  Quer ser aceito do jeito que ele é!  Porque na ausência ele desfalece, na distância se cala, no silêncio se recolhe.  Engana-se, quem pensa que esteja a morrer, ele apenas começa a alimentar-se de si mesmo.


Por enquanto, a perfeição é só para as flores!





quarta-feira, 22 de outubro de 2025

 1711



MADREPÉROLA


A cada manhã, na disposição de continuarmos a partir de onde paramos ou de reiniciarmos de outra forma, e dessa vez fazermos melhor do que antes; os grãos de areia que nos ferem os olhos, a pele, o coração, são revestidos com o nácar valioso da nossa superação.


Porque a dor, ah a dor!  Sempre existirá.  E o que dói em mim, pode não doer em ti, e não há como descrever com precisão a dor, só sendo sentida, é que saberemos o que é.


Levando em conta a sensibilidade de cada um ou a capacidade de suportar; a despeito de todo cuidado, de toda atenção que se possa ter para evitá-la, mesmo assim, ela vai doer.


Algumas dores, sabemos identificar onde dói, em qual parte do corpo; outras, parecem doer em alguma parte inexistente dele, e essas são as dores da alma.


A cada recomeço, colocamos mais e mais camadas de nácar.  Somos fazedores de pérolas


sábado, 4 de outubro de 2025

94






UM OLHAR SOBRE O COMPORTAMENTO HUMANO

CAFÉ PROFUNDO


Tenho saudade do tempo, em que a distância entre duas pessoas era só uma questão física.  Lembro ainda, de quando ouvíamos uma voz ‘viva’, do outro lado da linha telefônica - a nos dizer sim ou não.  Penso, que se ainda existem pessoas educadas e prestativas, elas são as de mais idade.  Difícil encontrar quem se permita uma conversa de olhos nos olhos e de peito desprotegido.  


A tecnologia está ao nosso favor, mas quando deixa de atender às nossas necessidades, por algum motivo, não há como acessar o que é preciso.  Os meios de comunicação mais atuais facilitam a conexão verbal, o reencontro de velhos amigos, porém muitas vezes, essa conexão se mostra rasa demais.


Sinto a distância de quem está perto.  Desespero quando ao tentar falar com uma ‘máquina’, ela não me entende, porque o que eu desejo não se encaixa em nenhuma das suas opções.  Em contrapartida, vejo um crescente desinteresse no atendimento pessoal, e no lugar de fazer o que são pagos para fazerem, na verdade nos prestam um desserviço.  Quase não se veste mais nenhuma ‘camisa’.


Nas conversas de hoje, nem é mais preciso que o outro revire os olhos - sinalizando-nos indiferença ao assunto, simplesmente, ele abaixa seus olhos para o que tem nas mãos, porque afinal as mídias são muito mais atrativas.


Onde foram parar, os longos e largos goles de café profundo, entre amigos?  Ficaram no passado, pois cada um tem suas urgências, portanto sem tempo para ser perdido num café.  Quantas vezes, só de falarmos a respeito de alguma questão nossa, encontramos as respostas, sem que o outro dissesse absolutamente nada?  Isso era muito terapêutico!


Nos acostumamos à força, a estarmos sós, à deseducação, aos monólogos internos, aos desserviços que nos prestam, a cortarmos o assunto ao meio, a tomarmos nosso café sozinhos.  Trocamos tudo por ‘informações’, as quais somos incapazes de reter na sua totalidade, e de maneira nenhuma estão nos ajudando a convivermos melhor.




sexta-feira, 5 de setembro de 2025

1710


HORAS E DIAS

Não são as nuvens que passam, mas o planeta que gira.  Não é o fardo que pesa, mas o valor que dou às coisas da vida.  Não é a pressa que deixa cru* o que devo viver, mas a ausência de mim, no momento presente.  Não é o medo que paralisa, e sim a minha falta de fé. Não é a dor que apavora, mas desconhecer sua origem.  Não é a culpa que me morde a alma, mas a responsabilidade pelas consequências às minhas escolhas.


De todos os cálices, dos quais sou forçado a sorver, o mais penoso de engolir, é aquele ofertado por mãos conhecidas, e ainda assim, sei que é preciso aceitar seu amargor.  De todas as horas e dias escuros, que sou obrigado a atravessar, os mais tristes são aqueles em que me sinto sozinho.



* Do ditado popular : "O apressado come cru"