quinta-feira, 28 de março de 2019

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SÓ O TEMPO DIRÁ

Para quê palavras, quando os sentimentos são ignorados?
Para quê tentativas, quando os olhares se desviam?

Quando os gestos não importam e os rostos não se reconhecem, os corpos se distanciam e a voz aumenta de tom, justamente para compensar a distância dos corações; não há nada a ser feito, porque nem assim se escutam.  Por mais que gritem, as ideias se desconversam, o respeito se ausenta e o vírus mortífero da indiferença, infecta a ferida aberta.

Já não é mais um só caminho, é uma bifurcação, cada qual vivendo segundo seus valores.  São dois ramos originários e saídos do mesmo tronco, que vão em  direções distintas.  É inútil tentar torcê-los, ou forçá-los a seguirem outro rumo, que não o seu próprio.

Ambos crescem para cima, em direção à luz.  Se darão frutos, ou não, só o tempo dirá.

28/03/19


arte | christian schloe

FRASES | PENSAMENTOS | POEMAS __ RUMI






10 CITAÇÕES

A ferida é o lugar por onde a luz entra em você.

Seja a neve derretendo. Lavar-se a partir de si mesmo.

Assim que você começa a caminhar, o Caminho aparece.

Os amantes não se encontram finalmente nalgum lugar. Eles sempre estiveram um dentro do outro.

Sua tarefa não é buscar amor, mas meramente buscar e encontrar todas as barreiras dentro de si próprio que você construiu contra o amor.

Deixe a beleza do que você ama ser aquilo que você faz.

Não se aflija. Qualquer coisa que você perde volta de outra forma.

Porque você permanece na prisão, quando a porta está completamente aberta?

Continue a bater até que a alegria interior abra uma janela para ver quem está lá.

Esquece o mundo e comanda o mundo. Seja a lâmpada, o barco salva-vidas, a escada. Saia de sua casa e, como o pastor, ajuda a curar a alma do teu próximo.






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BANDEIROLAS DE FESTA

Junto com meus cabelos, eu trançava uma fita colorida, grossa, diferente de uma acetinada - era mesmo de tecido rústico.  Ajudava a fixar os fios para que não caíssem sobre meus ombros e me atrapalhassem no trabalho.  Eu prendia tudo, em voltas sobre minha cabeça.

Lá ia eu, em direção ao rio, onde as roupas seriam lavadas e batidas nas pedras que formavam degraus em suas margens.  Ali mesmo ficariam expostas ao sol, esquentando e fixando na trama do tecido, a essência das ervas que eu esfregava junto com o sabão.

Eu as dispunha em cores e tons semelhantes, crescentes ou decrescentes, e costuma imaginar bandeirolas festivas a tremularem ao vento, nos dias de diversão.

As roupas ouviam as canções que eu e as demais lavadeiras entoávamos, não sabíamos de onde vinham, há quanto tempo eram cantadas, quem eram os compositores, mas nós as conhecíamos desde crianças, pelas vozes de nossas mães.

Carregava a tina cheia de roupas, em direção ao plano mais baixo do terreno, onde ficava o rio.  Na ida tinham um peso, a sujeira.  Na volta, apesar de molhadas, pesavam menos, exalavam um perfume que não sei explicar: a sua soma era maior do que o aroma das ervas, mais o sabão, mais a água, mais a luz do sol, mais as canções ouvidas.

Eu as estenderia pelos varais, dispostas da mesma maneira que as colocara ao sol, pelas variantes das cores.  Enquanto secassem, elas espalhariam respingos de água, e eu estaria a imaginar as mesmas bandeirolas festivas tremulantes, só que dessa vez, perfumadas e macias.  A festa seria no meu quintal.


28/03/18
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CUIDEIS!

Não deixeis que o brilho dos olhos dela
se ofusque ... e se ofuscar,
que não sejais vós, o responsável,
cuideis para que ele não se apague!   

A chama da vela festiva
deve refletir e dançar  
na superfície cristalina do seu olhar!

Ela não é pára-raio 
para as vossas tempestades,
nem é simples receptáculo
para as vossas necessidades físicas,
muito menos espelho refletor
para a vossa imagem aumentar!

Não é vossa mãe, a quem porventura
possais reclamar uma atenção que faltou ...
Porque ela pode ser 
um  porto seguro para a vossa viagem 
e fiel depositária de vosso amor.
Foi sua escolha, estar ao vosso lado!

Não lhe dê um altar,
porque não é isso que ela espera,
ela anseia formarem um par,
... de mãos dadas,
com igualdade e respeito!

Da chama que deveis manter,
depende a luz dos vossos caminhos
... e é essa mesma luz
que permitirá  a ela,
olhar-vos como homem
ou como um menino!
28/03/17



arte | greg spalenka

quarta-feira, 27 de março de 2019

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EQUIDISTANTES

Somos dois pontos, apesar
da equidistância não ser nossa vantagem.  
Talvez lhe falte coragem, 
o que a mim, 
está claro - não sei se a tenho.  
Não se trata, de qual ponto a tem ou não. 
Trata-se de um terceiro ponto a ser atingido, 
um novo e vivo paradeiro,
a dois pontos desapontados,
com uma inércia desconfortável.
Representam-nos, duas retas, 
que devem sair das trajetórias, 
e aos poucos, 
em inventando um traçado, 
irem fazendo um pesponto, 
saindo do paralelo dos egos em duelo 
e encontrando um caminho para o reencontro.
Duas vozes, em certa consonância, 
arriscando um contraponto.

     27/03/19



contrapontoa arte de sobrepor uma melodia a outra, ou uma voz a outra.




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BURACO FRIO 

Vejo as minhas mãos, mas não sinto a minha cabeça.
Eu procuro constantemente o espelho, para me certificar de que ela está, onde deveria estar, que ao menos isso, eu controlo.

Ela está, mas não está!
Como se estivesse projetada para fora, numa terceira pessoa, ou segunda, não sei!  Numa imagem desencaixada, que é minha, mas está fora de mim, não está comigo, fora da minha forma e  da fôrma.  Como pode?

Pedi tanto para pensar menos, sentir menos, sofrer menos!  E agora penso, sinto, como se não fosse eu.  Mas por que cargas d'água, continuo a sofrer?

Sofro, pelo pensamento que parece que voou.
Sofro, pelo buraco frio que ele deixou.
Sofro, por não sentir como antes!


27/03/18
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VAZIO ENGANOSO

Me olho de frente e vejo um vazio no meio – um portal raso - um buraco, pelo qual consigo enxergar o outro lado.  Só vejo uma extensão cava e sem sentido.

Ao me aproximar, sua goela rasa me engole,  e aos poucos vou descendo, deglutida pelos movimentos autônomos da garganta, enganosa quanto à sua profundidade.  

Vou me perdendo por esse oceano meio-aquoso, que permeia esse lugar e invade meus pulmões sem feri-los.  Tanto mais profundo mais embotamento provoca.

Por esse mundo sem sons e com algumas poucas imagens - simbólicas é claro - vou sendo integrada.   Quem incorpora ou assimila a quem, ele a mim ou eu a ele? Certo é, que não ofereço resistência e me deixo preencher.

Seu silêncio inerente, traga a mim como substância entorpecente, lentamente absorvida pela corrente sanguínea, que busca o cérebro e a inconsciência.

27/03/18