domingo, 19 de fevereiro de 2017



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RE_EDIÇÃO







Drama
19/02/16


Não corteis as árvores, sem ar e sem vento, o que moverá os moinhos?

Os grãos se perderão nos celeiros e as colheitas nos campos.  Nas cidades faltará de tudo!

A morte iminente não demorará, mas o processo anunciado será doloroso: asfixia, sede, fome, calor, desespero, caos e por fim arrependimento - quando não houver mais chance de reconfiguração.

As chuvas terão cessado, e vossos olhos querendo chorar para molhar a terra ... estarão secos, mas não cegos para verem os "portões do inferno" se abrirem.


Não vos será dado um outro planeta, porque não soubestes cuidar deste, e qualquer outro também seria por vós levado à extinção!

E podeis chamar de desgraça ou transformação, mas nunca de tragédia - porque os deuses nada têm a ver com isso - a responsabilidade é exclusivamente vossa!



sábado, 18 de fevereiro de 2017

 Fragmentos 383









Duas almas 

Fechei os olhos para ouvir a canção tocada ao piano.  Ouvi também o violino chorando, mas me concentrei no piano, porque esse choro era só solidariedade.
Pude sentir, que a canção trazia em si ... duas almas, eram duas canções – uma sobreposta à outra ... e embora uma fosse um pouco mais esperançosa – a sobreposição era perfeita.
Ambas contavam a mesma estória, sob diferentes versões - bem no fundo, as duas se distinguiam. Cada uma com sua própria vida e caminhos, que se separadas, fariam sentido sozinhas – mas juntas alcançavam um maior efeito! 
Eram tocadas por mãos diferentes do mesmo pianista.  Uma lamentava e insistia em bater as teclas a obter os sons mais brandos e tímidos, sempre os mesmos.  Por mais que a outra, mais triste e mais desalentadora, a fustigasse – ela continuava a tocar repetidamente – podia-se ouvir bem nítido, o diálogo entre as duas.  Mas para cada uma das perguntas ou lamentações que a primeira fazia, a segunda lhe respondia com mais veemência - numa tristeza com tons mais altos.
A primeira batia incansável - que ainda era tempo! A segunda derrubava por terra, revoltada, toda e qualquer tentativa ou argumento, de se amenizar a tristeza profunda que as arrastava,  se negando a conter  sua fúria.
Foi uma longa e triste conversa, tensa, um difícil consenso, uma superposição da tristeza, mas a harmonia aconteceu.
Até que ao final, as duas concordaram e passaram a caminhar juntas pelas teclas. Decidiram por executar a mesma canção, em uníssono, à duas mãos, como se fizessem um arranjo, ou tivessem feito um pacto.

Enfim, as duas eram uma.  Bem ao fundo ... um ouvido atento, ainda podia sentir - a voz de cada uma das almas.


Era essa a canção que ouvi
https://www.youtube.com/watch?v=pUZeSYsU0Uk

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017


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RE_EDIÇÃO



Serafim *
17/02/16






Era uma vez um anjo de nome Serafim.

Embarcou junto aos seus, num porto do velho mundo, rumo a um  novo lar, com promessas de prosperidade e vida longa.

Sua mãe cantava pra ele as canções que haviam cantado pra ela, porque Serafim era ainda uma criança de colo.  E foi nos braços dela - último berço - onde deu seu ultimo suspiro!

A viagem, de início morosa, tornou-se triste. Porque a promessa de prosperidade ainda vivia nos corações dos outros quatro integrantes, mas a de vida longa não se cumpriu, ao menos pra ele.  Serafim - que jaz no fundo do Atlântico, em algum ponto entre o velho e o novo mundo.


Dorme em paz nosso querubim, fará sempre parte da nossa história!




Serafim foi meu tio-avô que morreu durante a viagem Espanha-Brasil e foi lançado  ao mar.
"O segredo do amor é a androgenia: somos todos, homens e mulheres, masculinos e femininos ao mesmo tempo. É preciso saber ouvir. Acolher. Deixar que o outro entre dentro da gente. Ouvir em silêncio. Sem expulsá-lo por meio de argumentos e contra-razões. Nada mais fatal contra o amor que a resposta rápida. Alfange que decapita. Há pessoas muito velhas cujos ouvidos ainda são virginais: nunca foram penetrados. E é preciso saber falar. Há certas falas que são um estupro. Somente sabem falar os que sabem fazer silêncio e ouvir. E, sobretudo, os que se dedicam à difícil arte de adivinhar: adivinhar os mundos adormecidos que habitam os vazios do outro."

Rubem Alves

art by unknown artist

Fragmentos 382





 Rosa e Virgínia 


Nuvens de algodão doce, lua de marzipã ...
Um mar de gelatina lambeu os castelos de areia feitos de dia!

Penso se Adeline, também Virginia (1) 
...  comeu a maçã  - a vermelha, a do amor!?
Comeu sim, e chegou ao palito e o mordeu ... e sentiu seu amargor!

Se ela picou o dedo nos espinhos da flor ...
E quantas vezes picou?  Muitas!!!
As duas murcharam - a rosa, por fora ...
Virgínia, por dentro!

Fascinou-se pelo “farol” (2)?
Sucumbiu às “ondas” (3)?

Ela mesma falou sobre a morte:
“a única experiência ... que nunca descreverei”. 

A flor foi para o lixo e
Virgínia  escolheu o fundo do rio!
Das vozes de sua cabeça, qual delas fez a escolha?

Pergunto: por quê?
Como pode acabar tão triste, o que começou tão doce?

(1)     Adelina Virgínia Woolf
(2)     "Ao farol"  -  1927
(3)    "As ondas"  -  1931   


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017


Fragmentos 381

nina de san


Um só riso!

Sou do tempo em que pra ir à praia, era preciso, apenas um calção de banho ou um maiô, nada mais.  A gente sentava na areia, e dela enchia o fundo da roupa de banho.
A gente brincava com as ondas e nem pensava no sol, castigando a pele.  Ia e vinha, sem cansar, quantas vezes quisesse. A nossa alegria era felicidade, não tinha sorriso - nós tínhamos risos.
Que chapéu que nada!  Protetor solar, não existia. O tempo também não era contado.

Pra ir à praia hoje, é preciso tanta coisa!  Pra termos um só riso, nem sei o que é preciso?


Fragmentos 380






Deixando pra trás


Tomei o ônibus e me sentei de propósito, num dos bancos do 'bobo' - os quem ficam de costas pro motorista.

Tudo ia ficando pra trás, tudo o que eu deixava passar. Estava sem perceber, trabalhando o meu cérebro, vendo a face das coisas que não posso ver, indo de frente. 

Percebi, o quanto posso enjoar nessa situação, enquanto me desoriento e meu corpo chacoalha com o  balanço do ônibus, que transita pela via de asfalto todo irregular em remendos mal feitos.

Ruas e avenidas vão ficando pra trás, as de mão única, as de dois sentidos, os varais nas sacadas de casas antigas e mal cuidadas, em sublocação.  Não gosto muito do que vejo, mas essa é a minha cidade.

O calor é abrasador, não há ar condicionado, apenas uma abertura no teto, as janelas não dão conta de ventilar, e quando ventilam, deixam entrar um ar mais quente ainda.

Lembro-me dos bondes, das poucas vezes em que viajei neles com minha avó.  Íamos da Mooca até o bairro da Aclimação, visitar a prima Antônia, forçosamente tínhamos que passar pelo centro. Era uma viagem e tanto, mas compensava, o café da tarde da prima Antônia era sempre maravilhoso - sempre foi, com xícaras coloridas - eu me lembro, desde os tempos em que ela morava no Tatuapé e lá íamos fazer a nossa visita. Tive saudade do bonde, pelo menos não tinha janelas, era todo aberto.  Tive saudades também da prima Antônia, mais parecida com minha vó do que suas próprias irmãs - na voz e na aparência, no temperamento. Ambas tiveram a mesma doença.

Vi os estacionamentos lotados, as calçadas apinhadas de gente trombando umas com as outras e o quanto nosso povo é miscigenado.

Até os cachorros evitam o sol e se deitam à sombra.

Vi manequins nus nas vitrines das lojas, sendo vestidos por seus vendedores.  Vi a torre da mesquita.  Vi pessoas almoçando, em mesas de bares abertos, perdidas em seus pensamentos, preocupadas talvez com o que teriam que fazer logo mais à tarde e é muito provável, que não fizessem.

Eu estava quase chegando ao meu destino, embora tivesse a sensação de já estar voltando, pela forma como via o que ficava pra trás.  O movimento era de ida, mas assim de costas parecia que estava voltando, vendo um filme de trás pra frente ... eu acho.

Cheguei, desci e esqueci a sensação, depois de um café, tudo se aquieta.  Até que eu voltasse a me lembrar do que se passou, pra poder escrever a respeito.