quarta-feira, 22 de outubro de 2025

 1711



MADREPÉROLA


A cada manhã, na disposição de continuarmos a partir de onde paramos ou de reiniciarmos de outra forma, e dessa vez fazermos melhor do que antes; os grãos de areia que nos ferem os olhos, a pele, o coração, são revestidos com o nácar valioso da nossa superação.


Porque a dor, ah a dor!  Sempre existirá.  E o que dói em mim, pode não doer em ti, e não há como descrever com precisão a dor, só sendo sentida, é que saberemos o que é.


Levando em conta a sensibilidade de cada um ou a capacidade de suportar; a despeito de todo cuidado, de toda atenção que se possa ter para evitá-la, mesmo assim, ela vai doer.


Algumas dores, sabemos identificar onde dói, em qual parte do corpo; outras, parecem doer em alguma parte inexistente dele, e essas são as dores da alma.


A cada recomeço, colocamos mais e mais camadas de nácar.  Somos fazedores de pérolas


sábado, 4 de outubro de 2025

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UM OLHAR SOBRE O COMPORTAMENTO HUMANO

CAFÉ PROFUNDO


Tenho saudade do tempo, em que a distância entre duas pessoas era só uma questão física.  Lembro ainda, de quando ouvíamos uma voz ‘viva’, do outro lado da linha telefônica - a nos dizer sim ou não.  Penso, que se ainda existem pessoas educadas e prestativas, elas são as de mais idade.  Difícil encontrar quem se permita uma conversa de olhos nos olhos e de peito desprotegido.  


A tecnologia está ao nosso favor, mas quando deixa de atender às nossas necessidades, por algum motivo, não há como acessar o que é preciso.  Os meios de comunicação mais atuais facilitam a conexão verbal, o reencontro de velhos amigos, porém muitas vezes, essa conexão se mostra rasa demais.


Sinto a distância de quem está perto.  Desespero quando ao tentar falar com uma ‘máquina’, ela não me entende, porque o que eu desejo não se encaixa em nenhuma das suas opções.  Em contrapartida, vejo um crescente desinteresse no atendimento pessoal, e no lugar de fazer o que são pagos para fazerem, na verdade nos prestam um desserviço.  Quase não se veste mais nenhuma ‘camisa’.


Nas conversas de hoje, nem é mais preciso que o outro revire os olhos - sinalizando-nos indiferença ao assunto, simplesmente, ele abaixa seus olhos para o que tem nas mãos, porque afinal as mídias são muito mais atrativas.


Onde foram parar, os longos e largos goles de café profundo, entre amigos?  Ficaram no passado, pois cada um tem suas urgências, portanto sem tempo para ser perdido num café.  Quantas vezes, só de falarmos a respeito de alguma questão nossa, encontramos as respostas, sem que o outro dissesse absolutamente nada?  Isso era muito terapêutico!


Nos acostumamos à força, a estarmos sós, à deseducação, aos monólogos internos, aos desserviços que nos prestam, a cortarmos o assunto ao meio, a tomarmos nosso café sozinhos.  Trocamos tudo por ‘informações’, as quais somos incapazes de reter na sua totalidade, e de maneira nenhuma estão nos ajudando a convivermos melhor.




sexta-feira, 5 de setembro de 2025

1710


HORAS E DIAS

Não são as nuvens que passam, mas o planeta que gira.  Não é o fardo que pesa, mas o valor que dou às coisas da vida.  Não é a pressa que deixa cru* o que devo viver, mas a ausência de mim, no momento presente.  Não é o medo que paralisa, e sim a minha falta de fé. Não é a dor que apavora, mas desconhecer sua origem.  Não é a culpa que me morde a alma, mas a responsabilidade pelas consequências às minhas escolhas.


De todos os cálices, dos quais sou forçado a sorver, o mais penoso de engolir, é aquele ofertado por mãos conhecidas, e ainda assim, sei que é preciso aceitar seu amargor.  De todas as horas e dias escuros, que sou obrigado a atravessar, os mais tristes são aqueles em que me sinto sozinho.



* Do ditado popular : "O apressado come cru"

domingo, 17 de agosto de 2025

1709


 



ENTRE A LUZ E A SOMBRA


Quando tento barrar a luz, para que ela não passe por mim, e assim ofereço o meu corpo como escudo, crio uma sombra infinitamente maior, do que o tamanho que eu tenho.


Como a luz é capaz de projetar-se em leque, e ganhar força e espaços inimagináveis; a sombra também pode adquirir uma proporção fenomenal, muito além do que se possa supor.  Estarei então, sendo obstáculo para que a luz se propague e atinja lugares onde nada se vê, onde nada se perceba ou se conheça, mas onde todo sofrimento existe.


quinta-feira, 10 de julho de 2025

 1708




TEMPO DE REFLEXÃO

Deixei doer o quanto precisou.  Não a substituí por qualquer coisa efêmera, não amordacei sua boca, só olhei-a nos olhos e lhe prestei atenção.  Porque ela deve gritar, xingar e esbravejar; até maldizer se for o caso, até sussurrar, se assim o quiser.  Não importa de qual linguagem se sirva, para se fazer clara, devo acolhê-la e dar-me tempo de reflexão.. Pois ela é a entidade mais gabaritada, ela e só ela conhece as origens de si mesma.  Reivindica ser escutada, olhada, sentida, compreendida, antes que se dê por satisfeita.  Talvez ela nem acredite em milagres, mas o melhor dos unguentos é ver-se legitimada.


A dor?  Ainda dói e vai doer, mas dói diferente, porque dói entendida.



arte __ brendda lima


quarta-feira, 9 de julho de 2025

1707




PLÁGIO

Senti meus pés presos ao chão, como se tivessem perdido a forma e assim,  se encontrassem incorporados ao solo.  Num esforço descomunal de concretizar um passo sequer, me vi atolado na substância indefinida e pegajosa, que havia se transformado em armadilha.  Eu não afundava, tampouco conseguia andar, dominado por uma estranha força, que me mantinha cativo na inércia.  O desespero era patente, sob o medo de ficar para sempre enraizado, num espaço nem um pouco agradável, e que poderia tomar conta de todo o meu corpo.  Impossível precisar, por quanto tempo já se arrastava a agonia.

Então, numa longa e profunda transpiração da alma, saindo de uma irresignada trajetória,  retirei minha atenção dos pés e me dei conta de que havia muito mais do que chão.  Plagiando os pensadores e filósofos, que vieram séculos antes de mim e certamente, passaram pelas mesmas dores e incertezas; percebi que há céu para ser respirado, há águas doces para saciar a minha sede, há matas para acalmar as minhas vistas, há montanhas para que eu possa ter uma visão mais ampla de tudo.  Do alto pude ver as águas salgadas, que puderam curar as minhas feridas.


quarta-feira, 2 de julho de 2025

 1706




FENDAS DE TODOS OS TAMANHOS


Todos nós trazemos fendas não visíveis.  Rachaduras profundas, outras menos. Por elas entra ou sai a tristeza; entra bem menos do que ‘aquilo que precisamos’, e talvez por serem tão fundas, dificilmente ficarão cheias.  Mas só nos damos conta de suas existências, quando elas direcionam as nossas escolhas, para caminhos que se revelam tortuosos - miramos no que vemos e acertamos no que não queríamos - é essa a dinâmica do olhar adoentado que temos.  E a cada escolha desacertada, somos forçados a ‘revermos’ a blindagem que nos reveste, de descobrirmos o porquê, de nos deixarmos apoderar por sentimentos e emoções alheios e sermos sequestrados dos nossos verdadeiros sentimentos.  Vivendo numa miscelânea de sensações confusas, nos vemos obrigados a ‘degustar’ uma salada desagradável ao paladar e indigesta.


Como seres fragmentados, andamos por aí, com feridas a céu aberto, expostos a todo tipo de contaminação, a todo tipo de invasão, deixando sair o que é bom, sujeitos às doenças da alma. Tanto quanto, as fendas da geologia podem causar terremotos e explosões; essas fendas que existem em nós, também podem desencadear choques internos, convulsões emocionais e implosões.