sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

 1300




PEDRA MESMO! *

De toda poesia do mundo,

há quem não 'leia' linha nenhuma.

Em toda poesia, está escondida a beleza,

a complicada fórmula da felicidade 

e o valioso mistério da aceitação!

Quem não for capaz de ler e ver,

não será capaz de sentir e vivê-la!

Nunca achará a chave da porta,

em vão procurará a tal da 'receita',

morrerá afinal, fugindo à verdade

e negando que elas possam sim, existir!

Toda coisa feia será dura e preta,

todas as alegrias serão efêmeras e falsas,

qualquer destino será um castigo!

Passará pela vida, apenas passando

sairá dela, apenas restituindo à terra,

as substâncias que a terra emprestou!



* Faço aqui, uma alusão à célebre frase de Adélia Prado:  "De vez em quando, Deus me tira a poesia, olho pedra, vejo pedra mesmo."



quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

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ESPEJO DE AGUA

Me siento junto a un río, disfrutando del paisaje. Un barco con velas rojas, pasa en silencio, necesito agudizar mi visión, para asegurarme que no es un sueño o una alegoría de carnaval, tirado por una cuerda imperceptible a mis ojos. Deslizándose graciosa y lentamente, sus velas no se mueven y su casco no deja olas, por las aguas por las que pasa. Simplemente muestra un reflejo idéntico a él, en el espejo de agua, ¡así que sé que es real!


rojas - vermelhas

agudizar - apurar, aguçar

tirado - puxado


1298




A RIQUEZA DE ANTÔNIO

Arrasta atrás de si um destino ingrato, claudicando pelas ruas, a puxar um barulhento carrinho de feira, cheio de trecos, como quem tivesse ido às compras, mas não são compras, são cacarecos, garimpados do lixo ou doados por dó, que só a ele tem valor.

Seu nome poderia ser Zé, Chico, qualquer outro.  Não é um mendigo, não pede dinheiro; a única esmola que pede é de atenção, gosta de conversar com as pessoas.  Carrega às costas, um saco de nada, cheio de faltas, que lhe pesa muito, mas ninguém vê.  Num enredo caricato, segue a única vida que conhece - perambular pelo bairro, a mercê da misericórdia alheia e refém da chacota, daqueles que nunca passaram pelas mesmas dificuldades.  Mora de favor, não se sabe onde, come o que calhar, o que lhe derem - um lanche, um refrigerante, sob qualquer sombra de árvore, qualquer pedra ou degrau é banco para descansar.  É o homem do saco invisível, que leva às costas e nem por isso é pessoa má ou mal humorada.  Pode não ter nada além de seus cacarecos, mas tem muito mais, do que a maioria das pessoas de posses.  Pode ser que em algumas vezes, ele chore, mas eu nunca o vi revoltado ou triste.

Ele é a prova viva da real riqueza humana, independente do quanto ela possui em dinheiro ou coisas.  O seu tesouro não está nos cacarecos que junta, mas na humildade, com que aceita o seu destino.


03/02/21


1297



ELE É MAIS


Por ser secreto ou por ter que se calar, em vez de gritar ... por ser consciente de sua identidade, embora permaneça incógnita ... ele não é menos!

Seu caminho é solitário, se ressente do ostracismo em que vive e do confinamento forçado.  Vagueia pelos longos corredores, do castelo irreal que criou para si, para seu conforto e prazer.

Sabe que é árvore frondosa, com muitas folhas e de grande sombra, mas que não dará fruto algum ... por mais insetos, que nela venham pousar, a procura de flores ... nenhuma brotará da ponta de seus galhos.

É miragem que paira sobre a areia quente, feita de vapor, imagem holográfica, sem matéria condensada e palpável, que a qualquer mudança de ponto de vista, tende a desaparecer, como mágica - tem o mesmo tanto de ilusão, quanto contém de realidade.

Por todas essas razões ... ele é mais ... porque transita pela árdua estrada do altruísmo ... conquista, pouco a pouco, atributos de um sentimento incondicional; que apesar de trazer em si, pequenos rudimentos de pureza, ainda carrega pesados resquícios de humanidade.


03/02/21


'Dunkerque' | Ibrahim Maloouf

https://www.youtube.com/watch?v=DyMpnh-Gyj4


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

1296



DOR, BELEZA E PERFUME

Nem toda dor, depois de validada, deixa de doer.  Tem aquela dor, que mesmo depois de doída, dói, e dói de novo, como a do espinho cravado fundo, que não se pode arrancar, sem arrancar junto, o órgão acometido de perfuração.  Tem essa dor que é ingrata, que mesmo anestesiada, tem o poder de nos lembrar, que o tecido ferido permanece inflamado.

E quando essa dor, vem do órgão que não pode ser extirpado?  E quando semelhante dor, vem do mesmo mal, que alastrou-se a outras partes?  

Aí então, é deixar doer, para que assim nos lembre, a todo instante, que só quem vive, é que sente dor - os mortos nada sentem.  Ah! ... como eu gostaria de acreditar - que em se cessando a vida, cesse a raiva; em se morrendo a carne, desapareçam as aflições do espírito.

Tenho eu, uma outra convicção, bem mais mórbida, porém muito mais coerente - de que a morte da carne não livra o espírito de suas impressões ... que o espírito se livra do peso da carne e pode ir para onde quiser, mas carregará o espinho, para onde for, bem como levará com ele, inseparáveis, todas as rosas germinadas no seu chão - com a beleza e o perfume originais.

01/02/21



1295




TUDO E SÓ

Toda noite eu me declaro, em silêncio.  E faço parecer, que já me é o suficiente, porque é tudo e só, o que tenho ... tudo e só, que me permito.  Minha esperança, é que noite dessas, eu adormeça antes de dizer qualquer coisa, e que na manhã seguinte, me venhas perguntar, o porquê de não dizê-lo e me comunicar o quanto te importas.

E aí, tal como em meus sonhos recorrentes, onde sem sucesso, eu busco o mar, mas sempre acordo antes de pisar a areia molhada - eu finalmente - possa sentir meus pés tocados, pelas pequenas ondas da praia - é tudo o que quero!

01/02/21 

1294




SEM CABIMENTO

Quando me apaixonei, eu sabia, que o que eu sentia, não cabia na minha vida, nem na sua.  Era só coração, sem pé, nem cabeça.  Estaria mentindo, ao dizer, que não senti sua falta - mas por ser sem cabimento - eu torci, para que a vida lhe trouxesse alguém, que pudesse lhe dar o que eu não podia.

E foi aí, que eu cheguei o mais perto possível - o quanto podia - de um sentimento maduro.

01/02/21


arte | amanda cass