sábado, 7 de abril de 2018



PAPO DE DOIDO                                                                                    652







Há palavras que nos engolem de uma tal forma, que já não sabemos mais onde termina nossa individualidade e começa 'a coisa' - a qual nos tornamos, sob sua influência.

Vou tentar explicar.  Hoje, fui fortemente influenciada pela palavra 'vaivéns', terminei por me ver transformada nela, a palavra em si, em letras maiúsculas e grossas, garrafais.  Uma cobra de duas cabeças, uma em cada extremidade, sem rabo ou cauda, capaz de andar para os dois lados.  Pude até sentir, as minhas células humanas, com muitas membranas vibrando - enquanto  eu era as letras que formavam a palavra.  Tinha assumido a sua forma escrita, e à ela tinha cedido as minhas propriedades vitais.

Isso é papo de doido!

Foi isso que aconteceu, eu alterei temporariamente a minha forma, sujeitando-me à ideia, dessa vez sem grande prejuízo para meu equilíbrio físico e emocional, pois com a mesma rapidez e facilidade com que me transformei nela, eu retornei à minha forma normal.

Dessa vez, foi assim.  Em outras, eu me permito passar por metamorfoses não tão agradáveis, que chegam a ser danosas à minha saúde, deixando-me com uma sensação de que alguma coisa pode ter alterado o meu dna.

Eu fico a pensar: a palavra em si, é fria, sou eu  que empresto a ela, uma emoção que é minha.  É nesse momento, que eu me deixo ser deglutida, goela abaixo, ou eu que a engulo, não sei.  Tanto faz, de qualquer maneira, minha identidade, já está ameaçada - como uma mono-ideia, que me arrebata.  Num primeiro olhar, é o que me ocorre.  Eu percebo que, ao retirar a minha emoção, ela volta a ser fria e vazia como antes, uma simples palavra - um conjunto de letras.

Eu me faço a pergunta: a quanto de passividade de minha parte, devo responder!?  Porque nenhum processo desse tipo se dá à minha revelia.


Quanto a questão sobre:  'quem engole quem?' ... não cheguei a conclusão alguma.




sexta-feira, 6 de abril de 2018



A LUA, À SUA IMAGEM                                                                                 651

                                                                




Finge-se de moça-menina
pra deitar-se em cama espelhada.
Mas é senhora experimentada
procurando superfície cristalina
onde possa sua imagem
retratar uma linda miragem
enquanto vivente em outro lugar
querendo a todos impressionar.

A água do mar, rio e lago
se tranquila, lhe é fiel
agitada, lhe faz afago
e usa de um bom pincel
pra melhorar as suas faces
com inúmeras nuances.

Uma onda, ou corredeira 
pedra jogada, num momento
lhe transforma em faladeira
lhe dá vida e movimento.

É muito caprichosa
é mulher, é vaidosa
não perde oportunidade
de esconder a sua idade.

Eu a vejo nos teus olhos
em pequenos vidrilhos
no fundo do meu drinque
mesmo depois do tranque.

Seu reflexo é sempre belo
puro, límpido e singelo
onde quer que seja, esteja
sempre em forma de cereja.





terça-feira, 3 de abril de 2018

VASO VAZIO                                                                                                                 650




Acreditar nas mesmas coisas 
faz sincronizar os passos 
no mesmo ritmo, direção e sentido
faz querer trilhar a mesma estrada
descer e subir juntos.
Dois caminhos num só.

Se torna bom e mais alegre
às margens, pequenas flores.
Descendo e subindo, juntos
nem é tão difícil transpor
o caminho longo.

Mas em algum momento
o caminho quer dividir-se
e mesmo assim
continuam lado a lado.
A somatória das forças
já não é  positiva.

O vaso cai e se quebra 
uma, duas, muitas vezes
pelas rupturas escorre a água
que mataria a sede
que irrigaria as flores.
Pelas mesmas quebraduras
entram tristeza e solidão
de caminhar só, acompanhado
carregando um vaso vazio.

Os dedos macios até tentam
mas não convencem
quando a boca é ferina.
Não há afago que cure
o estrago de uma só palavra. 
A cobra abocanha o próprio rabo
nem percebe que ataca a si mesma
e se afasta do que deseja.

Dois caminhos num só, já não cabem
não há mais 'caminho', apenas 
uma faixa de cascalho irregular
poeirenta e imprecisa
que fere os pés e cansa
por não dar em lugar nenhum.




domingo, 1 de abril de 2018


CAUSTICO E MORDAZ                                                                               649






Sou eu quem faço um
Acróstico ao sarcasmo
Rio e me divirto
Com os defeitos alheios, cutuco
Á todos, aponto como deboche
Sou muito criativo e saboreio
Todos, me divertem
Invento as minhas piadas
Comigo? ninguém mexa! 
O outro? oras, com ele é engraçado!





RE_EDIÇÃO         Róseo das primaveras





arte: cristian schloe



Pode não chegar no róseo das primaveras.  
Perder o dourado do sol e surpreender em brotos, do meio das folhas sem vida, sem tempo para frutos... Mas chegará ...  ainda a tempo de acender a fogueira que irá tornar o frio menos cinza e o cinza menos triste.                      
                                                                 25/06/07


  

RE_EDIÇÃO        Agonia de um rio





Se um rio tivesse voz
ao chegar à sua foz
ela estaria sussurrante
... som suave e constante
mas também indeciso
de estar disperso ou conciso ...

Se chora ou se alegra
se se entrega e se integra
às  profundas águas de sal
e ao seu volume colossal
pra dormir no abissal!

Submete-se exausto, ao final
pois de um sim, não haverá sinal!
Somente carrega a certeza
de uma certa tristeza!

Da liberdade, só a saudade ...
de pra sempre, nunca mais
poder ele mesmo jamais
saber por onde passa e anda
ou lamber um canteiro de lavanda!

04/04/17

RE_EDIÇÃO        Gravura e moldura



Uma disparidade na parede
é coisa até que aceitável
outra, em você – é deplorável
... muito cuidado pede!

Bem cara foi a moldura ...
nem tanto vale a  gravura?

Na parede é decoração
na pessoa, contravenção
propaganda enganosa
com aparência ruidosa!

Se o que importa é conteúdo
não a face de veludo
nem o porte polpudo!
É o que desfigura
a própria figura!

Sem satisfação garantida
mostra uma verdade mentida!
É a moldura para o quadro
simples questão de enquadro!

01/04/17