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quinta-feira, 12 de abril de 2018



"Cheguei cedo à praia – antes de mim, só as gaivotas – para o ritual de ler o jornal, dar um mergulho, me secar ao sol e estar pronto, antes das nove, para mais um dia.
Era uma quarta-feira, a luz dos postes ainda acesa, os garis não tinham passado, e, aqui e ali, a areia estava salpicada de copos, cocos, canudos. No mar, não muito longe, flutuava um saco plástico.
Ler o jornal na praia tem a vantagem de não se prestar muita atenção às notícias. Há o vento, a tentação de abandonar o olhar no horizonte, acompanhando uma revoada de pássaros, a sombra de um cardume, um barco, as ondas que se esmeram em nunca ser as mesmas.
O que boiava no mar me interessou mais que as manchetes do dia, não muito diferentes daquelas da véspera. Era um volume arredondado, tinha duas tonalidades, e vinha como que carregado num andor, na procissão das ondas.
Imaginei se não seria um golfinho.
Certamente um golfinho doente, porque vinha sem vontade própria.
A água estava límpida, e lentamente aquilo que flutuava foi ganhando contorno, pernas e braços.
Não era um golfinho nem estava doente.
Estava morto.
Era um homem.
Liguei para o número de emergência, ainda que não houvesse mais emergência alguma envolvendo o corpo semi-submerso.
Pediram informações que eu não tinha – tudo que sabia era que, a poucos metros de mim, boiava um homem morto.
Não demorou muito – ou demorou uma eternidade – apareceu um salva-vidas. Repetiu burocraticamente as perguntas para as quais eu não tinha resposta e entrou no mar. Entrei com ele, menos por vontade de ajudar do que por não saber o que fazer ficando em pé na praia.
- Não pegue nele sem luvas! - pediu, me poupando daquilo que eu não iria mesmo fazer.
Puxou o corpo pelos tornozelos, e a pele deslizou como se fossem meias.
- Deve ter sido no domingo. A correnteza entrega aqui, em quatro dias.
O salva-vidas, que não chegou a tempo de salvar-lhe a vida, arrastou o homem – a cara enfiada na areia - até depois da arrebentação, deixou-o ali de bruços, e foi pedir um carro para a remoção.
Ficamos, eu e o corpo, na praia semideserta.
Devia ser branco, era jovem (tinha os cabelos negros), usava uma sunga preta idêntica à minha e um relógio que, se fosse à prova d’água (o dono não era) ainda funcionaria.
Permanecemos imóveis e silenciosos - como convém a dois desconhecidos que nunca se falaram e não é agora que o iriam fazer - até que começassem a chegar outros madrugadores.
Uns se aproximavam, curiosos; outros fingiam não ver, para não estragar o dia, a corrida, a meditação, o surfe.
Seriam quase nove da manhã quando desisti de velar sozinho o afogado, dobrei a cadeira, recolhi o jornal, os chinelos, e dei as costas ao mar e ao morto.
Não fossem as ondas, quase que dava para ouvir o tique-taque mudo do relógio, marcando o tempo que, para um de nós, não fazia mais sentido.
Agarrado ao seu pulso, como um cão na coleira, o relógio lembraria aos outros banhistas que aquilo era um homem, não um corpo. O relógio lhe garantiria mais algumas horas de humanidade."




Eduardo Affonso







"O universo não se dividia, então, em luzes e sombras ou entre o Bem e o Mal, mas nos domínios do masculino e do feminino, representados pela máquina de escrever e a máquina de costura.
A primeira comandava o escritório do meu pai; a segunda, o quarto da minha mãe. Uma cercada de livros e silêncio; outra, de retalhos coloridos, música e risos.
Escrever, com os indicadores catando milho nas teclas da Remington, exigia concentração – ali, no âmbito das leis, não éramos bem-vindos. Nosso lugar era no chão, de tesoura da mão, recortando figuras das revistas de moda, aos pés da Singer.
Cada um desses mundos tinha seu vocabulário próprio, seu dialeto. Cerzir e sursis, corpetes e habeas corpus, evasês e evasões – palavras que se aproximavam, sem jamais se tocar.
Junto ao pedal da máquina de costura, imperava aquilo que mais tarde soube chamar-se Francês: godê, plissê, cotelê, croqui. Nos raros momentos sob a escrivaninha, prevalecia o que desde sempre se chamou Latim: animus, caput, data vênia, de cujus, pari passu, causa mortis, sine die.
Havia uma palpável hierarquia entre a matéria – o pano, o pence, o pesponto – e o espírito. Entre o braçal da carretilha, da agulha e do dedal, e o reino da autoridade intelectual, da retórica, da persuasão.
Essa divisão era ancestral: minha avó regia a roupa no varal, a labuta na cozinha, e meu avô, as conversas no salão, a posse do dicionário, as palavras cruzadas no jornal.
Um desses espaços era mais sentimental e mais lúdico: o do soutache, do ilhós, da passamanaria. Do cós, do viés, da sianinha, da lapela, do vivo, do gavião. Das revistas coloridas (o outro mundo não tinha figuras). Da tesoura que fazia ziguezague – da própria palavra ziguezague.
O outro mundo não oferecia grandes diversões além do perfurador, com o qual se podia fazer confete: não era permitido tocar a caneta-tinteiro, a carimbeira, o mata-borrão.
O mundo do papel manilha era melhor que o do papel almaço. A Burda, mais agradável de folhear que qualquer processo.
O quarto de costura era nosso quintal; o escritório, a sala de visita. Este, o território do não; aquele, o do sim. Um, o dos livros fora do alcance, na estante – o outro, o de sentar no chão, entre cortes de cambraia, retalhos de feltro, amostras de cetim.
Apesar de estar lá a cultura, de lá ficarem as letras, foi no lado de cá que se deu a descoberta de que cada palavra tem sua textura, seu caimento.
Assim o morim, a chita e o riscado, tão distantes da organza, do tafetá, do organdi - não só ao tato, mas também ao ouvido. Assim o linho e a flanela (ele, ríspido; ela, suave), o impecável poliéster e o suscetível algodão.
O mundo do Direito e o do avesso, o das Cortes e o da costura, o das Leis e o das linhas acabaram por se cozer num só, este em que se pode chulear as frases, rematar sentenças e nelas ir alinhavando ideias e pregando as palavras como quem prega botão."