quarta-feira, 4 de junho de 2025
HIATO 2
Desgosto sobre desgosto - des_gosta; escuridão atrás de escuridão - des_lustra. Inútil foi tentar reaver o brilho, muito menos soprar o fogo que mantinha o sentimento aceso. Passou um vento forte, ao qual nenhuma chama resistiria acesa.
Criou-se um hiato, que não se detecta em nenhuma parte do corpo. Abriu-se um buraco, uma fenda na alma, por onde já escorreu toda a boa intenção, todo o tempo de espera, toda a graça e não há nenhuma ponte capaz de transpor essa distância - essa boca que a tudo engole.
sexta-feira, 30 de maio de 2025
1701
NADA
De silencio en silencio, escribo una carta póstuma.
De palabra en palabra tragada, es muerte… Muerte de la comunicación, muerte de la esperanza, del reencuentro, del acuerdo o reparación.
Se levanta un muro de bloques pesados, alto y frío, con mortero fuerte. Nada más se ve, nada se oye, nada se espera.
tragada - engolida
bloques - blocos
mortero - agamassa
segunda-feira, 26 de maio de 2025
1700
AO FINAL
É inútil esperar que as paredes respondam a contento, às perguntas que lhes faço. Elas transpiram sentimentos, reavivam imagens guardadas e as decodificam, da maneira que podem. Usam de uma espécie de mímica, em vez de palavras, porque não sabem falar. As suas lembranças mais as minhas, quase que conseguem re_montar a trama inteira, e o que falta(?) é complementado pelos objetos. Ao final, não me revelam nada que eu já não saiba.
Nem mil demãos de tinta forte podem cobrir o cheiro que exalam. Nenhuma cor ou textura apaga as imagens nelas grudadas. Nem o tempo, nem o esquecimento os faz desaparecer. E ainda que esquecidos, ficariam na memória, impregnados à estrutura física, como fantasmas emparedados.
sábado, 17 de maio de 2025
1699
O CÉU DE CATARINA
Fui encontrar minha criança, no jardim de Catarina. Ao contrário do que pensava, ela não estava perdida, e sim muito bem achada. É como se, o tempo todo, ela estivesse a me chamar para lá, mas como não lhe dei ouvidos, parou, já há algum tempo.
Foi preciso apenas um pequeno comando, para que eu baixasse a guarda (um pouco o volume e quantidade dos meus pensamentos) e assim pude identificar o seu chamado. Imediatamente, nos encontramos. Eu adquiri sua estatura, de modo que as flores ali presentes tomaram um tamanho descomunal, em relação ao que se imagina. As minhas preferidas: boca de leão amarelinha e crista de galo em vermelho intenso estão presentes como muitas outras, singelas e delicadas.
Flores que eu nunca mais tinha visto em lugar algum, com cores, formatos e vivacidade quase irreais, ali estão vívidas e concretas. Somos duas, mas numa só pessoinha correndo por entre elas, com as perninhas curtas e ágeis. Tocando, aqui e ali, com muito cuidado, explorando tudo com mãozinhas brancas. O jardim era da Catarina, amiga de minha avó, mas sem dúvida a dona dele sou eu ou uma miniaturinha de mim, que reivindicou a posse dele para sempre, e o batizei como ‘céu de Catarina’. Lá reencontrei a graça, a alegria de estar rodeada de flores, dando gritinhos, esbarrando nos pequenos arbustos, atrás das borboletas, movimentando todas as folhagens, tirando o sossego do lugar. Já nem me lembrava mais, do tanto que gosto das flores … e eu achando que preferia as folhas!!!
terça-feira, 6 de maio de 2025
93
UM OLHAR SOBRE O COMPORTAMENTO HUMANO
OLHOS E OUVIDOS RASOS
Aos olhos que não querem enxergar, é inútil usar de uma excelente imagem, para fazê-los entender. Aos ouvidos que se negam a escutar, desnecessário é a melhor explicação ou uma só palavra. Porque estão condicionados a não executarem nada mais do que as capacidades funcionais dos órgãos.
Obedecem a um mecanismo de defesa, que impede que as informações cheguem ao emocional, sendo mantidas no racional: se veem é para se atualizarem, se ouvem é só para responder. Em lugar de um filtro, existe um bloqueio, entre o que veem e ouvem, e o que deveriam transformar em sentimento. São olhos e ouvidos rasos.
As tentativas infrutíferas de forçar um entendimento causam profundo estresse, porque constantemente, o interlocutor se sente frustrado, mas não percebe que a cegueira e a surdez são do outro, e não incapacidade sua. Não são apenas esses dois órgãos que estão bloqueados, existe uma vasta rede que se encontra deficiente. Se recusam à troca saudável e condenam-se à exclusão e à solidão.
É impossível bater à porta desse interior, porque nem se sabe onde ela está? Obviamente que está trancada por dentro, e a menos que um dia ele resolva destrancá-la, ninguém entrará.
quinta-feira, 24 de abril de 2025
1698
EU E O ECO
Tive medo de olhar-te nos olhos. Temi ser traído pelo sentimento guardado - que ele ficasse evidente, através das janelas da minha alma; e assim, eu seria descoberto. Preferi lançar-te olhares dissimulados - não falsos(!), mas envoltos numa névoa fabricada, para ofuscar a transparência do vítreo. Só Deus sabe o quanto me custou!
Do contrário, nem sei o que faria, talvez eu negasse, veementemente … ou confessasse, num ímpeto de coragem. Porém eu quis evitar, forçar-te a uma resposta ou posicionamento. Pois nem mesmo eu sei, como cheguei a isso(!), como pude dividir a minha vida em duas partes: uma antes e outra depois de ti! Vivo no ‘entre’, num espaço às vezes espaçoso, às vezes espremido, separado por dois limites finos. Ah! O entre! Lugar onde eu revivo todas as emoções.
Comparo o que se passa comigo, com uma festa. Dentro do ‘entre’, eu experimento, toda a expectativa, do tempo que a antecede, o entusiasmo crescente. Rememoro o dia e o momento exatos dela, cada detalhe, com toda a alegria, movimento e brilho. Até que me deparo com a bagunça que ficou, a casa vazia e escura, tudo o que restou dela, eu e o eco da minha voz.





