segunda-feira, 2 de outubro de 2023

1617



PELA PORTA ABERTA

De tempos em tempos, um terror se apossa do meu ser.  Não sei de onde vem, qual sua idade, porém conheço a sua fome.  De entrada, abocanha a minha fé, ainda morna, como iguaria rara e tenra; para depois se fartar das minhas outras boas defesas: espera paciente, enquanto elas esfriam sobre a pedra rústica da incerteza criada.  Na sequência, assalta as minhas emoções, ao provocar-me sensações desagradáveis; e sem explicar-se à razão, sequestra a minha atenção, a um turbilhão louco de ideias e sentimentos.

Creio que esse medo, misturado a um certo tremor, seja bem mais velho do que eu, mas sem dúvida, temos uma conexão, também de longa data - pois, ao aproximar-se, sempre, reconheço-lhe as feições e humores. Em algum lugar, deve haver uma porta esquecida aberta, que lhe dá chance de transpô-la e se acerca, sem cerimônia ou aviso. Passa por ela, sorrateira, uma emanação gelada e rasteira, de cor indefinida, até que se condensa numa figura disforme. Incoerentemente, essa massa fria causa-me um efeito ardente, nas vísceras contorcidas.


Felizmente, em algum momento dentro do turbilhão, entre as oscilações que tenho, encontro-me mais à superfície, e assim, mais próxima da saída.  Por misericórdia ou mérito, eu recupero a terra firme, e ele retorna ao reduto desconhecido. Infelizmente, minha fé ainda não é robusta o suficiente para rechaçá-lo, logo nas primeiras investidas. A porta precisa ser fechada, selando a entrada, para tornar inacessível a sua passagem.






sábado, 30 de setembro de 2023

 

1616




DESDE SIEMPRE

Lo que mis ojos no pudieron ver, mi alma lo contempló. Cuando no podía entender con mis oídos, era ella misma, el alma, quien decodificaba sonido a sonido. A veces, mi boca no podía verbalizar lo que había dentro de mí, pero mi alma no se dejaba malinterpretar y encontraba la manera de decir todo lo que sentía.


arte __ catrin welz-stein

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

1615




DESSE JEITO

Foi em secreto e no silêncio.  Estive à procura do seu rosto no meio da multidão, só por medo de esquecer-me de como era ou para alegrar o meu dia e depois, à noite, lembrar-me dele antes de dormir.  Amei, até meus olhos secarem pela espera ou até a esperança desesperançar, e eu então, guardei-o num quarto que só eu tinha a chave.  Foi do meu jeito, do jeito que pude. Amei até o coração se ressentir em cicatrizes; amei em cada acorde das canções que ouvi, em cada palavra que podia ser dita por mim e não disse.  Sem direito a confessar-me, tive a penitência como certa.


terça-feira, 5 de setembro de 2023

  1614


ORDEM E CLAREZA

Só aprendemos a arrumar as nossas coisas, quando a desordem interfere nas nossas ações; justo quando, ao procurarmos um objeto, achamos um outro procurado há tempos; quando visualizamos um objetivo e alcançamos outro, totalmente diferente.  A nossa vida tanto quanto a nossa casa, guarda-roupa, mesa de trabalho se tornam um emaranhado de tralhas desnecessárias, de papéis entulhados em espaços errados.  Coisas e pensamentos partilham da mesma confusão.  


Quando a vida fica insustentável, pelo desconforto de nunca sabermos onde está o quê; onde ficou a nossa intenção/atenção - onde estamos, de fato; o que fizemos com determinada situação … é que vemos a real necessidade de nos organizarmos dentro do espaço físico e do tempo que dispomos.   Essa atitude nos levará a um melhor e mais rápido desempenho, com decisões mais coerentes com nossos sentimentos, pois estaremos mais atentos a eles. Livres da poluição mental, decorrente da poluição visual, será possível maior foco nas nossas realizações.  É preciso limpar o espaço para podermos enxergar mais longe.


sábado, 2 de setembro de 2023

 1613




QUE ME MORDAM OS MACACOS

Para hoje - nenhuma urgência.  Tampouco nada que se adie, se for da competência deste dia.  Ao hoje - apenas as coisas de hoje.  Não pretendo vender o amanhã, afinal ainda não o tenho, ele nem nasceu!  Tampouco encherei o ‘hoje’, com preocupações igualmente  não nascidas.  Por mais que me venha a morder a ansiedade: aos nervos e às suposições; deixo a Deus o dia futuro e suas devidas inquietações.  Já me bastam o hoje e seus apropriados cuidados.

domingo, 20 de agosto de 2023

 1612



SOBRE CEREJAS E AZEITONAS


Da cereja que falta ou da azeitona culpada.  Nem toda cereja de bolo é cereja de fato.  Quase nunca, é a azeitona da empada, a responsável pelo desconforto no estômago.


Eu costumo dizer que as azeitonas salvam qualquer prato, sejam verdes ou pretas.  As verdadeiras cerejas são deliciosas, porém nem sempre vem acompanhando a fatia de bolo que nos cabe, raramente é isso que acontece.  Não é bem sobre elas que quero falar; na verdade, não sei onde toda essa explicação vai me levar!  Vou tentar dar um fim útil à narrativa.


Devo admitir que as duas podem fazer toda a diferença, mas muitas vezes, temos que seguir sem a presença delas na nossa vida, se compararmos um pedaço de bolo ou empada, às coisas que nos acontecem.  Quando não ‘as termos’, não depende de nós, quando é algo compulsório, quando o acesso ao pote de cerejas ou ao vidro de azeitonas é impossível, vai sem mesmo!


Acredito que o importante, é termos algo doce e algo salgado nas nossas vidas.  Que não nos faltem o bolo e a empada, com ou sem o coroamento da fatia, com ou sem o sabor inconfundível  que a azeitona dá.  


E quando formos agraciados com uma ou outra, saibamos apreciar com gratidão, aquilo que nos foi permitido ter.


Acho que de uma certa forma, consegui dar um desfecho coerente à ideia inicial!


sábado, 5 de agosto de 2023

1611





CARTA ABERTA


Saudade dos lábios brilhantes!  Nesse mundo de ‘nudes’ e ‘mates’, fiquei saudoso da boca úmida e viva!  E isso, não é poesia!  Eu me refiro às escolhas que é preciso fazer, forçosamente.  Escolher uma opção, dentre inúmeras, sendo que, antes, tería acesso a todos os atributos, num mesmo produto.  É como tratar a cabeça separada do corpo - como se não pertencesse a ele.  Como se importar com o fígado, sem considerar o resto dos órgãos.  Porém, isso é o que já se faz na medicina.


O que devo considerar sim, aqui, é que minhas águas correm, dentro de um leito, bem acima do mar - e isto também não é poético.  A vida segue por caminhos já escavados, na terra e pedra, feitos pelos que vieram antes de nós. A geografia muda, pela sua própria natureza.  As regras de convivência mudam, pela ganância do ser humano, de poder e dominação. O que se ‘lutou’ tanto para conquistar, se perde em pouquíssimo tempo. 


Já não sei se poderemos contar, com os leitos dos rios, para escoar as nossas vidas.  Se eles ainda estarão lá, ou se, modificados pelos interesses, serão extintos, fazendo a água secar em muitos lugares. 


Ah!  Tenho saudades das coisas, eu diria … ‘menos incertas’, que permitiam que as mesmas coisas fluíssem, apesar de todas as dificuldades!  Saudade do tempo em que se ouvia uma voz humana, do outro lado do telefone.  Saudade do tempo, em que mulheres e idosos, realmente tinham prioridade, ao subirem num ônibus.  Hoje, o educado é o inadequado, o bicho raro.


Na verdade, os nudes e mates são os menores problemas!  É o retrocesso, a volta à barbárie, à deseducação.  A involução, com inversão de valores, vendo conquistas de gerações, sendo jogadas no lixo.  Isso é que me faz lamentar, ter vivido para ver tudo desmoronar … talvez eu tivesse esse lamento, lá pelos meus oitenta anos(!) … quando estivesse sentindo a dificuldade de me encaixar(!).


Sei que para construir, às vezes é preciso desconstruir; mas essa alarmante desconstrução me mete medo; estou no meio de uma espécie de implosão do aprendizado humano, onde conceitos são queimados, feito livros perigosos.