domingo, 23 de maio de 2021

1351

NA MEDIDA EXATA



Amigos são a família que não coube na consanguinidade da carne.  Dispersos por outros bairros, cidades ou países, acabamos por nos encontrar, em meio aos caminhos comuns que pisamos. São pessoas, que nos resgatam tantas vezes do desespero, dividindo conosco as tristezas - esmiuçando-as, em pedacinhos suportáveis, colocando o unguento da boa palavra, na nossa ferida.  São capazes de multiplicar conquistas, mesmo não sendo suas e elas se tornam mais brilhantes e mais meritórias.

Amigos são a parte boa e incondicional na nossa história, em cumplicidade e bem estar, de estar dentro do seu abraço: do seu tempo e atenção, que cedem a nós, por escolha - pelo simples prazer de estarmos juntos.  Amigos também, podem ser, as únicas pessoas, com coragem de dizer aquilo que precisamos ouvir.

Amigos são as criaturas de Deus, que nos amparam e acompanham, quando muitas vezes, o amparo e companhia esperados e certos, não chegam.  Levam de nós, pequenas partes.  Levamos conosco, pedaços deles, incorporados à nossa maneira de pensar e ser; nem sempre na mesma medida em que doamos; mas certamente, fato que se dá de comum acordo - na medida exata da nossa necessidade.  Numa troca prazerosa, ninguém se sente prejudicado, porque todos ganham.

23/05/21







quinta-feira, 20 de maio de 2021

78

UM OLHAR SOBRE O COMPORTAMENTO HUMANO

'O LOBO DO HOMEM'




A mais longa e difícil viagem - o homem em busca do seu próprio eu.  A queda mais alta e perigosa - cair em si.  Pelos resultados aos quais se chega, podemos dizer que são duas coisas parecidas - ambas contundentes, no sentido emocional e psicológico.

A trajetória da viagem, nem sempre é confortável, aliás, a maior parte dela é árdua e desagradável, pois nos remete às passagens inóspitas, pelas quais teremos que nos aventurar, cedo ou tarde, forçosamente e solitários.  O caminho, só poderá ser transposto por nós mesmos, porque é único e personalizado ao autoconhecimento e à nossa evolução.  Será preciso fazermos das pedras, um local elevado de apreciação, que nos permita uma visão mais acurada do caminho à frente, quando não pudermos contorná-las ou não nos for possível, transformá-las em pontes.  Nunca empilhá-las em muros.

A precipitação maior, a que alguém pode se submeter, não é aquela que um corpo pode suportar.  A mais profunda extensão vertical que alguém pode percorrer em queda livre, é dar de cara com o seu real tamanho.  Reconhecer até onde vai seu controle, o limite de seu desejo e vontade, admitir as imperfeições de seu caráter.

Invariavelmente, somos o 'lobo do homem', o 'lobo' de nós mesmos, enquanto julgamos conhecer a verdade do outro, quando ainda desconhecemos a nós mesmos. 

20/05/21

quarta-feira, 19 de maio de 2021

1350

NO ES




Callar, no es dejar de sentir. Callar, es sentir el sentimiento sin un atisbo de dolor, sin el deseo de gritar en los vientos.  Porque hablar no disminuye su intensidad, tal vez la aumente y la haga más grande que el pecho.  Así, él en silencio y  sin voz ... quién sabe ... olvidado ... volverá a encajar en el pecho.

19/05/21



quarta-feira, 12 de maio de 2021

 1349

A VIDA FORA DA CASCA




A vida não me verá, quando, o que eu fui, estiver em decúbito dorsal, dentro da minha última caixa, porque não serei mais eu.  Por mais adornada que seja, não sentirei o conforto.  A lividez do meu rosto mostrará, que esse tipo de vida, se foi.  Também nada sentirá, quando entregar, de volta à terra ou às chamas, o instrumento que me serviu de fôrma, porque será apenas uma casca.

Estarei rondando em outro canto, espero(!), em outras paragens, mais agradáveis(!).  Quem sabe, não muito longe; aproveitando outra espécie de vida, aquela que experimento à noite, cujo acesso, não precisa de pernas, para nos levar onde desejamos. 

Esse dia chegará, como chega a todos, e quando chegar: quero poder ter consciência leve, que não me pese na hora de subir; quero ter coração em paz, que não me prenda ao tipo de vida que não me pertence mais.


12/05/21

sábado, 8 de maio de 2021

1348

 EM FRENTE




Escondido, nas dobras do silêncio, deixei que ficassem as lembranças. Quase tenho saudade do tempo ingênuo da ilusão; às vezes, confesso que sinto
 uma profunda vontade, de voltar a estar dentro da mesma sensação, que ela me causava - da esperança e certeza, que me preenchiam, nas lacunas mais incertas e mais fundas.  Agora, não há mais nada, que eu possa jogar dentro desses buracos, pra que se encham e não me façam, cair dentro deles.  Onde havia um quê de familiar, agora, quando desdobro o pano, só há reentrâncias, onde eu caio, de forma inevitável, sem nada para amortecer a minha queda.

Foram bons tempos, aqueles, onde todas as possibilidades eram, realmente possíveis, ainda que por tempo curto.  O campo era aberto e dava acesso a todas as direções imagináveis, para poderem ser seguidas.  Depois de atravessá-lo, dei de cara com um caminho de mão única e de intenso fluxo, impossível retroceder ou estacionar - era seguir em frente ou seguir em frente.

08/05/21

sexta-feira, 7 de maio de 2021

1347

FAZ DE CONTA 



Nas batidas que o silêncio faz ecoar, eu reconheço o quanto ele me diz, em cada palavra e em cada gesto implícito; em cada suspiro ou lamento, fica bem claro, o que não chegou a ser dito.  Quanta coisa fica guardada, fica parada na garganta, no peito, na ponta da língua.  Tanta coisa que cria raiz, enquanto perde a voz - de tanto gritar e tentar ser ouvida.  E 'as gentes' ... calam essa voz, engolem as palavras a seco, mais os sentimentos que a elas acompanham, ao fundo da goela.  São palavras nunca ditas, por isso mesmo, indigestas, porém, tão sentidas e compridas, que mesmo depois de engolidas, deixam uma pontinha para fora, numa espécie de rabo, impossível de se esconder - lembrando que ali tem coisa entalada. 

Fazer de conta, que dissemos tudo o que era preciso; fazer de conta, que não vimos o que foi visto; fazer de conta, que não ouvimos o que foi ouvido ... tudo isso tem um custo - o faz de conta transforma-se em silêncios guardados, bem fundo, indigestos, mudos e com um rabo bem grande.

07/05/21







quarta-feira, 5 de maio de 2021

 1346

PELOS REINOS DA CRIAÇÃO



Ao que parece, a alma quer voar, já não cabe dentro de si.  Precisa pairar, por sobre a beleza das coisas, sem tocá-las; senão, por um roçar de asa de borboleta, na corola acetinada ... ou pelo bico faminto e solene de um pássaro, beijando o coração da flor, em busca de alimento.  Vai ao sabor do vento, atraída pelos aromas, pelas cores, pelos sons.

Sabe bem, que deve ficar cativa, por tempo indeterminado, o que não lhe impede, de tornar-se um ser alado e diáfano ... meio fada, meio arremedo de gente.  Quando quer ou precisa, dar umas escapadelas e rodopiar leve, com passagem livre e despercebida, por todos os reinos de toda criação, ela se permite, dar-se à liberdade, ainda que, só por alguns instantes.

05/05/21

diáfano - que permite a passagem da luz; transparente, límpido