segunda-feira, 3 de agosto de 2020

1195


DEUS ME LIVRE 
03/08/20



Meu maior temor, não é deixar de corresponder às expectativas de fora, porque a essas, ninguém consegue mesmo, retribuir de forma equivalente.

O grande pavor, é desconhecer-me nas minhas mais profundas partes, aquelas que nem sequer pressuponho que coabitem, junto às conhecidas ... e assim desperdiçar a chance de saber, a quê eu vim.

Ficaria a ignorar a minha mais bela face, a nuance mais pura, a pior e a mais sórdida, e mesmo que não conhecesse tudo ... porque tudo é muita coisa; se ninguém conseguisse me entender, não seria minha culpa. Desconhecer-me, isso sim, teria sido de minha inteira responsabilidade.  Frustrar as minhas expectativas, é negar e negligenciar as minhas necessidades de ser humano. 

Não quero amargar o fato, de ter raízes presas a vasos pequenos, ou ramas podadas, por não caberem no espaço limitado em que vivi.  Eu me odiaria, se soubesse, que não pude florir por falta de sol.  Eu preciso saber, qual é o espaço adequado ao meu crescimento.

No lugar de asas, temos o pensamento, o raciocínio, a vontade.  Temos as mãos, temos os braços feitos no comprimento exato (quando esticados), da distância que nos permite, girar sobre nossos pés, sem esbarrar em ninguém, e que nos dão a garantia de individualidade.  As palavras proferidas por nós, devem guardar coerência e sentido, em primeiro lugar, com o que pensamos e o que sentimos.

Quanto aos demais, não importa! Tenho medo, é de passar despercebida de mim mesma, de não ser famosa dentro do meu próprio enredo, de não ser prioridade minha - e de não ser honesta comigo mesma, antes de aparentar honestidade aos outros.

Deus me livre do cilício silencioso, dos boicotes com cara de 'coisa certa' (feitos à minha pessoa), dos 'nãos' cortantes, disfarçados de sim, que dou aos outros.  Eu, como minha maior inimiga.

O mal que me façam, não é tão afiado, quanto o mal, ao qual eu me permito submeter.



arte | amanda cass

sábado, 1 de agosto de 2020

1194
UMA BELA CAPA 
01/08/20




No começo, como sempre, faço um esboço rudimentar e despretensioso.  Toda ideia nasce incerta e um pouco frágil, dentro da cabeça.  É lá que a escrevo, antes de tudo.

Estória, não é uma coisa que se possa escrever, como se toca um piano, a uma, duas, três, quatro mãos.  Só pode ser escrita, por uma única mão, mas nunca construída por uma só pessoa.

Quase tudo é real, pessoas, local, tempo e circunstâncias, até um certo ponto da narrativa.

Alguns podem entendê-la, como sendo um delírio ou alucinação de minha parte; mas eu prefiro considerá-la, como fruto de minha imaginação, além da conta de fértil.  Mas reservo-lhes o direito de pensarem o que quiserem.

Acrescento, que ela é sobre duas trajetórias diferentes, que em algum ponto, se cruzam em tempo, lugar e situação idênticos, mas sem nomes e datas.

Esta estória, em sendo, reais as pessoas, estão sujeitas às reações humanas, e portanto, é perfeitamente plausível, passível e possível, de se tornar bem interessante.

Como disse, a sua construção, não se deu apenas pela minha atuação 'solo', há a participação de uma segunda pessoa, e é com a sua permissão que a escrevo.


*

PREFÁCIO

Depois que a casa silenciou e eu fechei meus olhos (ou não), sentei-me à mesa de madeira, que uso para esse fim, e de posse da caneta, comecei a trabalhar sobre as folhas em branco.  Cabe dizer, que esse lugar é dentro da minha cabeça - um lugar seguro para as minhas ideias, antes do seu nascimento.  Embora isso se dê dentro da cabeça, nunca excluo, nenhuma parte ou sensação do resto do meu corpo.

Na primeira noite, escrevi uma ou duas páginas; alguns parágrafos, os reli; fiz uma alteração, aqui, ali; risquei alguns trechos; substitui algumas palavras, não para ser convincente, mas para me fazer entender.



A ESTÓRIA 

‘Sinto o farfalhar de meu vestido esvoaçante, ao caminhar, afinal é dia de festa!  Tomo a direção contrária, do que se esperaria que tomasse - a festa.  Ouço o barulho dos meus passos, do salto fino de minhas sandálias, batendo forte no chão, em ritmo tranquilo e decidido.

Parada à porta, percebo o ambiente acolhedor, uma atmosfera aconchegante, de luz indireta e tenho uma calorosa recepção, daquela que se oferece, a quem se espera, há muito.

Ele me toma pelas mãos, dando fim à inércia que me conserva imóvel, levando-me para dentro.  Oferece-me uma taça de vinho branco, porque afinal é festa!  Conversamos, não com velhos amigos, porque não o somos, mas como conhecidos profundos, porque não chegamos a ser velhos, de fato, pois faz apenas um ano, que nos conhecemos.  E além do mais, conhecer alguém, nada tem a ver com o tempo de conhecimento, mas com a sinceridade e coragem nos diálogos.

O tempo passa agradável, sinto-me em segurança e certa, de que é, a companhia ideal, lugar e momento exatos, em que quero estar e ficar.

Dançamos de rosto colado, pele com pele, porque concordamos, que dançar juntinho, uma boa música, é a metade da sedução. Dançar é cortar amarras, é estabelecer vínculos de liberdade e prazer; é sermos um só ser, apreciando e sentindo a música, deixando que ela nos leve ... e ela nos levou, porque quisemos ser levados. 

A luz cariciosa sobre os lençóis macios, sobre nossos corpos, a mistura de nossos perfumes, o sabor do vinho na boca, a alegria da entrega e do encontro - estavam imortalizados.  Tudo fazia sentido e obedecia a uma sequência de bem estar, dentro da confiança e intimidade consentida.

Tudo foi dando consistência à estória, detalhes, emoções, toques.  Foi sendo formatada, por nós dois, ganhando corpo, movimento e vida, criando memórias para ambos, que ficariam para sempre, mesmo que aqueles momentos nunca mais se repetissem.

Perfeito, não no conceito de perfeição total, inatingível, mas perfeito, na beleza da própria perfeição imperfeita, por sermos pessoas reais, com todas as possibilidades possíveis ao nosso alcance - de acordo com as nossas escolhas.’


Fim

*

Noite após noite, após a casa silenciar, eu reabro a minha oficina, me sento à mesa e volta à nossa estória.  Agora, já não é mais manuscrito despretensioso, cresceu em tamanho e significado, ganhou até uma certa intenção.

Eu releio, revivemos e re_sentimos todas as sensações.  E as suas folhas, merecem uma bela capa, dura e resistente, para mantê-las unidas e ordenadas, protegidas do tempo e da poeira.

O meu desejo de toda noite, é poder abrir a bela capa, a qualquer hora do dia, sem precisar que a casa silencie.  E mais ainda, vivê-la, a estória, fora do livro, fazendo-a realidade, porque talvez, só precisássemos de uma ajudinha do destino, ou de uma conspiração do universo, em nosso favor, para transformá-la em história.

Ora, ora ... não é o que dizem?  que plasmamos nosso futuro?  não seria isso que estou a fazer!?  tentando materializá-lo!?

E mesmo que eu consiga transformá-lo numa história, não vou prescindir, de mantê-la escrita e protegida por uma capa bela e resistente, guardada com muito cuidado.  Haverá novos capítulos a serem escritos, será preciso atualização dos acontecimentos.  Mesmo porque, sempre gostei das palavras e também porque um dia, minha memória pode me trair.









1193

DE TODAS ELAS 
01/08/20






De todas as estrelas
do mar e do céu
de sal e daquelas
que enfeitam o véu
mais as da terra
da planície e da serra
tomei à força, o brilho!
E presas por um cadilho
iluminam meu caminho
com fulgor circunvizinho!


cadilho - fio de tecido
fulgor - clarão
circunvizinho - adjacente

arte | christian schloe

1192


A CASA 
01/08/20



A casa parecia pequena,
nem mesmo ele, nela cabia.
Sua cabeça dormia na pia,
os membros tinham gangrena.
Seu ego era tamanho!
Muito, mas muito distendido!
Seu humor, bem tacanho!
Acocorado e espremido
vivia por lá, esquecido!

Quem por acaso, se atrevesse,
desejar e tentar, nela adentrar,
era comum, a casa defenestrar!
Mesmo, que ao aperto suportasse,
não encontraria nenhum conforto,
seria cuspido, como resto de aborto!



defenestrar - atirar janela afora, violentamente

arte | jamie heiden
1191

DO JARDIM DE CLARICE
01/08/20




"naquela terra, eu literalmente nunca pisei, fui carregada de colo."


Talvez, ela só quisesse falar das dores de todas as 'marias', 'teresas' e 'antônias'; mas acabou falando das dores de todos os 'joões', 'paulos' e 'pedros'.

Quando Clarice falava de 'clarice', falava sobretudo de Chaya, que havia ficado na Ucrânia, para que Clarice, pudesse aqui florescer.

Nascera munida de um agente transformador.  Amante das palavras e conhecedora da importância delas, fora a porta voz da humanidade, isenta de gênero, cor ou crença.

Levantara bandeiras, gritara frases, ideias inteiras, seus escritos são testemunhos vívidos, deixados à posteridade, filhos nascidos da transpiração de sua alma, frutos belos em seu azedume e amargor, que esperam o tempo, para se tornarem doces.

Ao expor suas feridas, sem o saber, permitiu que muitos reconhecessem suas próprias dores e buscassem  a cura.

Ao gritar suas incertezas, fez com que outros tantos, encontrassem suas próprias respostas.

Para sempre Lispector!



Homenagem à Clarice, Lispector

1190

PATOS E CISNES
01/08/20



 


Quando meu filho, era ainda bem pequeno, eu me lembro, de que sempre me perguntava as mesmas coisas, enquanto eu esperava que dormisse - ele torcia uma mecha do seu cabelo, entre seus dedinhos, fazendo um rococó.  

Essa era a nossa conversa:
"Mãe, eu sou um patinho feio?" ...  "não filho, você é um cisne!"  ... "eu sou um 'cines', mãe?"  ... "sim filho, você é!"
E eu falava pra ele: "fecha o olho, que o soninho vem!" ... ele me dizia: "não mãe! ... eu quero ver o soninho!"  Então essa conversa profunda, só terminava quando o cansaço o vencesse.  

Tudo isso é pura introdução, uma lembrança fortuita que tive (aqui, totalmente desnecessária), nada tem a ver com o que virá a seguir, exceto que falarei de patos e cisnes.

*

Vou tentar desenhar aqui uma imagem, uma espécie de revés da estória original, que todos conhecem - o patinho feio.  Tal imagem, não se aplica a essa minha lembrança ou ao meu filho, mas me fez pensar de uma forma diferente, a respeito da estorinha infantil.

Não quero dizer, que nenhum animal da criação de Deus seja feio, mas nessa minha versão, esse 'patinho', tendo vivido a sua vida toda, entre os patos, se acha acima do padrão de beleza, com o qual se acostumou.  Sua estória é parecida com a do narciso, julga-se mais do que é.

Na estória original, existe um patinho que é feio, para os padrões dos 'patos", mas ele é um cisne.

Pois bem, podemos ter a primeira interpretação: um cisne, criado como pato, que um belo dia, se reconhece como um verdadeiro cisne - belo e majestoso.  Ou ainda, numa segunda visão: a figura do patinho significando a simplicidade e inocência, de um ser que almeja aperfeiçoar-se, a ponto de se transformar em cisne.

Na minha estória, o 'patinho' é pato mesmo, mas se julga um cisne, tem um delírio visual ou coisa assim, quando vê seu reflexo na água, e acha que, como já é majestoso e perfeito, não precisa se esforçar em melhorar-se.  Ao contrário do patinho da primeira estória, que um dia se reconhecerá cisne, o patinho da segunda, será sempre um pato. 






70

 
UM OLHAR SOBRE O COMPORTAMENTO HUMANO
CERCAS, VIZINHOS E CONVIVÊNCIA
01/08/20



 
cerca - divisão, proteção, resguardo
vizinho - adjacente, próximo
convivência - convívio, camaradagem


Cercas são barreiras físicas, que separam e delimitam um território, mantendo-o em segurança, a salvo das investidas indesejáveis.  Assim são os limites, em relação à convivência, que devemos impor ao comportamento das outras pessoas, quando este nos afeta demais e infringem a nossa integridade e dignidade.  Estabelecemos, até onde elas podem ir, uma linha firme, além da qual, ninguém deve ultrapassar.  

Ter alguém pisoteando nosso jardim ou horta, sem permissão; ou adentrando a nossa casa, no meio da noite, tirando-nos da cama, sem avisar - é no mínimo, uma falta de respeito, para com a nossa vontade e privacidade.  

Limites saudáveis, são também necessários, para os relacionamentos interpessoais de todos os tipos - devem ser estabelecidos entre as partes.  Do contrário, quando os limites não ficam muito claros, ou frouxos e largos demais, corremos o risco, de não conseguirmos recolocar as velhas estacas de madeira, que sustentarão o arame farpado da cerca.  Dessa forma, reivindicarmos a nossa posse e restabelecer nosso território, pode ser um trabalho muito mais árduo do que se imagina.  O que quero dizer é que, algumas pessoas são invasivas por natureza e costumam não respeitar limites alheios, nesses casos é necessário um vigor determinado, para desenharmos um contorno seguro à nossa personalidade.

Não há nenhum problema, em oferecermos uma flor ou fruta do nosso quintal; nem recepcionarmos uma pessoa em nossa casa, com todo o carinho - desde que realmente, seja isso que queiramos fazer.

Boas cercas, fazem mesmo, bons vizinhos, geográfica e emocionalmente falando, para que o gado do vizinho não venha comer do meu pasto, nem que eu tenha minha individualidade ameaçada.