sábado, 18 de julho de 2020

1183
AH! SE A GENTE PUDESSE!
11/07/20



A dor é inerente à vida - a primeira luz, a primeira respiração, o primeiro alimento, tudo é sentido, dolorosamente, após sairmos do útero. Reagimos às nossas primeiras sensações de dor, com choro e desespero, quando nossos órgãos, ainda não usados, passam a executar funções, para as quais foram destinados.

A medida que o tempo vai passando, somos apresentados a novos tipos de dor: a uma dorzinha de ouvido, a dor do crescimento. E assim, vamos nos acostumando a suportá-las, porque a maioria delas, vem e vai. 

Às vezes, bem mais cedo do que gostaríamos, vamos tendo contato com outras dores, as que não são físicas - que ninguém sabe que dói, mas dói.  Essas são as piores, pois contra elas não existe analgésico ou unguento conhecido.  Podemos até fazer de conta, que não estamos sentindo nada, mas ela não vai embora, e em algum instante, vai minar a nossa capacidade de tolerância.

Mais crescidos, passamos a fazer nossas escolhas e algumas delas, não são as mais felizes. Em consequência, podemos ir ao encontro de uma dor, que faz parte do caminho escolhido, e além de padecermos dela, temos a plena consciência, de que somos os responsáveis por ela.

Ah! se a gente pudesse colocar uma dor terrível, dentro de uma caixa de vidro, hermeticamente fechada e transparente, e nos fosse possível olharmos para ela, conservando-a distante de nós, não permitindo que ela nos atingisse, de forma tão impiedosa!  Mas ela está dentro de nós, não tem como fazermos essa separação, o sistema nervoso emocional, também é todo conectado, senão com nervos de material vivo, mas com ligações de outro tipo de material, tão sensível quanto os nervos de carne.

A dor emocional é um espinho, que alguém colocou em nós, e que deixamos que ficasse lá.  Só nós é que podemos retirá-lo. 

Quanto à ideia da caixa de vidro, pode nos servir como um artifício (por um minúsculo lapso de tempo, se possível), que podemos usar, para analisarmos do que é feito o espinho, porque ele nos fere tanto e como podemos retirá-lo?





sexta-feira, 10 de julho de 2020

1182

DANÇANDO SOB A LUZ
10/07/20



Desvio levemente, o meu olhar à direita, como querendo obter uma visão 3D, de minha própria figura, de perfil, a mirar-se no espelho.  Acompanho o volume dos cabelos, um cacho mais teimoso; os cílios; os olhos sinceros; a generosa curva do nariz; a boca entreaberta.

Dentro do espelho, uma imagem holográfica se forma, uma cópia de mim mesma.  Aos poucos se enche de matéria, reagrupando os elementos, se condensa e se projeta para fora.  Ganha contornos definidos, consistentes e quentes; agregam vida, que desenha sombras, enquanto dança sob a luz.

Ao espelho, não é possível representar toda grandiosidade e calor da figura.  

À figura, tampouco, lhe interessa ver-se refletida por completo, sobre a superfície fria.  Nada além de uma imagem invertida e enganosa, seria vista.


1181

NESSA ORDEM
10/07/20



A maldade se transforma em feiura.  A intransigência se cristaliza em antipatia. A resistência, congela o sentimento e ação.

A feiura assusta, a antipatia afasta e sentimento congelado, mata.


quinta-feira, 9 de julho de 2020

MÃE

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MÃE
09/07/20

Recebe-me em teu colo, acolhe a minha dor, me protege e vela por mim, hoje e muito além do dia de minha passagem!

PAI

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PAI
09/07/20


Como filho teu, eu peço que possas estar comigo, em meus dias e noites.  Fortalece-me, de aceitar a tua vontade.  Afasta de mim o mal, que ainda não sou capaz de enfrentar sozinho! 

terça-feira, 7 de julho de 2020

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UM OLHAR SOBRE O COMPORTAMENTO HUMANO
FACA SEM CABO
07/07/20



Rejeição - senão o pior, é um dos piores sentimentos pra se ter, porque por maior que seja o problema, contar com alguém, pode ser todo o alento, de que se precisa pra superação da dificuldade enfrentada.  No caso de quem sofre  rejeição, esse apoio não é sentido, mas apenas a sensação de abandono e fraqueza, diante da adversidade.  A solidão intrínseca é sentida em todas as células do corpo, como também ecoa no reservatório vazio, que deveria conter, ao menos, um tanto de segurança.

Nasce na infância, por várias razões, legítimas ou não, mas a criança, sempre a entende como real, dentro da sua compreensão infantil.  Ela pode ser sentida ainda no útero, durante a gestação, quando esta não é bem vinda, por algum motivo.  É sensação que se traduz em sentimento, levado pra toda vida.  

Sentir-se à parte de algo, não incluído, ou não desejado, em tenra idade; pode por algum tempo, passar batido; mas em algum momento, uma situação que lhe cause um desconforto, semelhante ao sentido na infância, pode fazer aflorar a conhecida e tão temível sensação de desamparo.

É como tentar dormir numa cama quente, com um grosso cobertor sobre si, mas em algum ponto, esse mesmo cobertor deixa uma abertura, e se pode sentir o frio entrar, congelando as costas - é impossível dormir!

Geralmente, quem sofre rejeição, também rejeita um dia, principalmente, se não se dá conta do buraco que traz em si.  Haverá sempre uma 'criança', a procurar uma explicação, que justifique ter sido rejeitada, e como não encontra nenhuma, não é raro, que culpe a si mesma, de não ser boa o bastante, de não ser merecedora de atenção ou amor.  Tenho visto isso, os padrões se repetirem, de geração em geração, até porque quem foi rejeitado um dia, tem medo da entrega, teme novas rejeições, mais que tudo na vida, então, por defesa, permanece distante.

Eu só consigo pensar numa imagem: uma faca, que possui uma só lâmina bem afiada, com duas pontas e nenhum cabo.  Cada vez que é usada, fere dos dois lados.





sábado, 4 de julho de 2020

1178

MELHORES INTENÇÕES 
04/07/20



Não se ouviu a palavra.  O 'não', redondo, determinante, sonoro em seus poucos fonemas, não foi dito.  Mas ele ficou implícito, no discurso, em atitude e sentimento, podendo ser sentido, pairando, por toda atmosfera ambiente - num entendimento tácito.

Tentou-se transformar, pedras lançadas em pontes; mas as pedras eram muitas, não foi possível usá-las todas; além do que, as pontes construídas, levavam o nada a lugar algum.  

Eram tantas, as pedras, que começaram a se acumular, ali mesmo onde caíram. Foram levantando muros altos, pesados e largos, no espaço destinado à comunicação, soterrando as melhores intenções.

Os muros vieram separar fisicamente, o que já estava separado há muito.