domingo, 21 de junho de 2020

1174

ANDANDO EM CÍRCULOS
21/06/20


Olho para o céu, vejo as nuvens passando com pressa, e com meu olhar de criança, imagino que são elas que se movem e não eu, porque estou deitado no chão, imóvel.  Elas vão em velocidade bem acelerada, nem consigo adivinhar-lhes as formas e penso: onde elas querem chegar?

Mesmo que eu não queira, eu obedeço ao movimento inevitável da terra; mesmo parado, vou junto com elas - as nuvens e a terra - literalmente andamos em círculos.  

Penso melhor e mais friamente, e percebo que posso quebrar esse traçado, quando me levanto e começo andar no sentido contrário ao qual as nuvens se movem.  Faço caminhos retos, dobro uma esquina, subo e desço ladeiras, pego uma saída, saio da estrada, volto, quantas vezes quiser - e isso as nuvens não podem fazer. Elas só podem, é voar em círculos, descrevendo, ao máximo, uma linha elíptica.









quinta-feira, 18 de junho de 2020

1173

MEDIDAS INTEIRAS
18/06/20





Eu não era.  Não estava mais lá.  Não tinha corpo, só um pequeno risco vertical, situado e marcando um ponto, numa linha horizontal.  Era a linha do tempo, e eu era um determinado ponto de um tempo, já passado - eu fora.  Era estranho, ou talvez, eu devesse dizer: 'foi' estranho - isso seria mais apropriado.

Era um talo de planta, um pedúnculo irreconhecível, sem mais nada, nem folha ou flor; uma pequena estaca representativa do que eu fora, fincada no tempo, que embora já não conservasse cabeça, trazia a consciência intacta.

Eu não estou lhes dando meias medidas, não intencionalmente, esse não é o caso.  Dou-lhes medidas inteiras, ao menos tão inteiras, tanto quanto elas podem ser, ou quanto eu acredito que sejam.



arte | helena abreu










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BANDEIRAS VERMELHAS
18/06/20




A vida é tão monumental, que não cabe dentro dos limites estreitos, em que nos movimentamos: ocupados com nossos interesses, necessidades e afazeres.  Tal território não comporta a grandiosidade de viver interesses alheios, necessidades desconhecidas e afazeres estranhos à nossa rotina.

Moramos assim, em uma casa pequena, que para vivermos nela, é preciso, andarmos curvados, porque também é baixa, além de apertada.  Ao final de cada dia, exaustos e entediados das repetições constantes, nos sentamos à sala, acreditando ser o melhor a fazer, e então, aceitamos o descanso merecido.  Mas não pode ser só isso!

A noite espera o dia, ansiosa, e eu espero o amanhã, como promessa, do que o 'hoje' não me trouxe.  Vou deixando pelo caminho, algumas bandeiras vermelhas: por não querer aumentar o perímetro, afastar os muros, sair do meu quintal ou destravar o portão.  Um belo dia, ao olhar para trás, verei a todas, e saberei porque nunca saí do lugar.




segunda-feira, 8 de junho de 2020



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ALÉM DA NOITE
08/06/20





A fúria da água, do vento e do granizo arremessou-se contra as casas, jardins e sobre as ruas.  Ameaçou a ordem e segurança das coisas: a vedação das janelas, a inteireza dos telhados, a obstinação da vegetação em permanecer presa ao chão.  A tempestade correu pelo asfalto irregular, geografia abaixo, varrendo tudo o que pôde.

Trovões com seus efeitos luminosos, clarearam a escuridão que se fez, além da noite, pois a energia elétrica foi suspensa.  Seus barulhos nos avisaram, sobre quem é que manda de verdade.




1170

TÃO CERTO QUANTO
08/06/20





Por mais que eu me aproximasse, não pude tocar-te; pois sempre, te conservaste a uma certa distância.  Quem sabe, não tenhas, ou talvez não queiras dar-me, o que minha mão pede; tampouco te interessas em receber o que tenho para oferecer-te.

Expectativa é semente resistente, que fixa raízes em qualquer solo, por mais árido que seja.  Por menos que se queira, é planta que cresce robusta e tem um fruto, tão certo quanto amargo - a frustração.


sábado, 6 de junho de 2020

1169

O MUNDO E A CAMA
06/06/20





Nem sei que horas eram.  Mais um movimento que eu dei na cama, e acordei.  A bexiga que esteve quieta, até então, começou a dar sinal de que estava cheia.  Não deu outra, tive que me levantar e ir ao banheiro.

Ao retornar pra cama, foi impossível voltar a dormir.  Revirei de um lado pro outro: sobre o ombro esquerdo, sobre o direito, de bruços, de costas - sempre um desconforto me incomodando.

Foi inevitável, pensei no que tinha deixado pendente no dia de ontem, nas coisas por fazer no dia seguinte, mas talvez já fosse hoje.

Sem perceber, minha cabeça tinha dado volta ao mundo, no mundo das preocupações.  Como fazer pra resolver algo, que não depende só de mim, mas que mesmo não 'resolvido', eu pudesse manter minha consciência tranquila, em saber, ter feito tudo o que podia?  Como me  portar com o mínimo de dignidade, dentro de uma situação, que não posso mudar?  Como realocar alguns recursos financeiros, como prosseguir, como ser feliz?  E por aí afora, passado e futuro, estavam ali, naquele momento.

Tudo coisas, com as quais, eu não me preocuparia a essa hora da noite, ou do dia, caso estivesse dormindo.  Mas a preocupação, tão preocupada que é consigo mesma; mancomunou-se com a bexiga e me fizeram acordar e permanecer em vigília, dando voltas ao mundo e na cama.  


quarta-feira, 3 de junho de 2020

1168

AO TEMPO E AO VENTO
03/06/20




Silenciei.  Renunciei às palavras.  Porque invariavelmente, não caem em solo fértil e mesmo que venham servir de adubo, para novas colheitas, eu as terei sacrificado, ao chão pedregoso, como flores antes viçosas, depois secas e mortas.

Elas me são muito preciosas, são o melhor fruto de minha ruminação mental.  Não direi, que as que eu digo, são sempre as mais certas, longe disso, mas me confesso, cansada de lançá-las ao tempo e ao vento!

arte | anne soline