segunda-feira, 8 de abril de 2019

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TARDE DEMAIS

O convite para sair veio tarde, muito tarde.  Quisera muito e bem antes, sair para dançar. Um passeio romântico, viria bem, com conversa, de olhos nos olhos, sem chance de enganos.

Mas não vieram, nem o convite para dançar, ou sair, o romântico, a conversa.

Agora, não há muito o que se dizer, de interessante, ou de explicar-se porque não quer, as vontades passaram ou se acabaram.  O que caberia? ... em uma só palavra?  ... adeus.

08/04/19
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A COR DAS MONTANHAS

Imagine uma paisagem, sob seus olhos, um recanto verdejante da natureza.  Exuberante, exibindo todos os tons idealizáveis, que o verde pode ter, debaixo da luz do sol, iluminando algumas partes, outras não.

Você está imerso nessa paisagem, e observa de um ponto mais alto dela, seu olhar passeia sobre tudo o que está a seus pés.

O local onde se encontra é estratégico, para lhe dar garantias de segurança e aconchego.

Aprecia a extensão do terreno em declive e vê todos os detalhes, que se desenrolam à sua frente, todos quantos, pode ver a olho nu.

Pode ver os montes, dispostos em ordem decrescente, abaixo do local onde você se encontra.  Todos eles se cobrem de vegetação farta.  Pode também visualizar espaços entre eles, formando pequenas planícies, com vegetação mais rasteira e clara.

Consegue perceber um rastro espelhado, que reflete a luz do sol com toda fidelidade, serpenteia pela terra. Em alguns trechos é visível, em outros, quando se contorce por detrás dos montes, corre escondido, para logo reaparecer brilhando como prata polida.  Ele desenha uma tangente delicada, em volta dos morros que circunda, procurando os níveis mais baixos e as passagens mais fáceis do relevo do solo.

É possível, de onde você está, ver o sol caminhando pelo céu e fazendo desenhos sobre a paisagem abaixo.  As nuvens dão os contornos, do que se projeta sobre o que você vê.

As horas passam, a temperatura do ar pode ser sentida pela sua pele e os cheiros que a floresta exala, entram pelas suas narinas.  Dá para distinguir a essência da madeira; o cheiro da folhagem úmida, pela névoa das primeiras horas do dia, que agora se evapora em perfumes exóticos - é o cheiro de plenitude - porque você tem a certeza de fazer parte dessa beleza.  Não é apenas uma sensação, pois você tem olhos para apreciá-la e mais todos os sentidos, para captar a grandiosidade, que se desdobra ao seu lado, abaixo e acima de você.

É capaz de ouvir os sons, que dão vida à floresta, desde o farfalhar das folhas pela passagem de uma leve brisa, o canto do pássaro mais tímido, as raízes rasgando a terra profunda, os galhos se elevando aos céus e louvando ao sol.

Os animais terrestres, você não os vê, mas sabe que estão em movimento, na atividade rotineira, rentes aos troncos das árvores, próximos ao solo, colhendo os frutos caídos ou cuidando de suas crias. Os insetos, executam o seu trabalho, em silêncio.

Você acompanha a trajetória de um pássaro que voa e descreve uma linha interessante no céu, mas não deixa marca, ao contrário do rio.  Você apenas, consegue acompanhá-lo, por quase uma semi-elipse, que vai de um ponto a outro, percorrido por ele.

É nessa hora, em que você assiste ao voo do pássaro para mais longe, que você percebe, lá no fundo, onde sua vista alcança o fim da paisagem - a última coisa que seus olhos veem - uma cadeia de montanhas e você descobre, que de longe, bem de longe, as montanhas são azuis, porque se confundem com o céu.

08/04/19




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CATIVEIRO 

Uma distância na cama, afasta os corpos.  Um desrespeito furtivo, fere um sentimento.  Dia após dia - esse sentimento - ferido por muitos desrespeitos subterrâneos e um pouco mais intencionais, já não tão furtivos, se cansa de resistir e morre.  Dá-se a distância das almas.  Uma longitude que só faz crescer, um desfalque praticado sobre antigas intenções e prometidos propósitos, um sequestro de sonhos.

Um corpo pode ser aprisionado.  A matéria é passível de prisão, mas um coração, pode morar dentro desse corpo aprisionado e ainda assim ser livre.  A mente pode vibrar em todas as células desse corpo cativo e ter asas, batendo onde quiser.

O mesmo se aplica ao sentimento, ele não se deixa prender, nem forçar, nem permanecer vivo dentro de algemas, por mais brilhantes que sejam, ou por mais sagradas.

08/04/18


arte | catrin welz-stain



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GIRA SÓIS

Foi o sol que girou todas as vezes ... ou fui eu?
Já nem sei ... vi muitos deles ... um a cada dia!
Ou foi sempre o mesmo?
Eu o segui ... por toda vida!
E o seguirei, fiel e dolorosamente viciada!

Apesar de sofrer seus efeitos malignos 
aprecio muito mais seu poder curador
 de toda escuridão 
 de toda umidade 
 de toda tristeza 
 de todo frio e doença!

Sua grandeza, me seduz e encanta 
um contraste a toda minha impermanência!

Mesmo se estiver  enferma
sempre vou preferir um dia de sol!
Mesmo se estiver triste ...
serei menos triste, se ele estiver presente!

Seguirei a girar o meu rosto na sua direção
sob pena de derreter minhas asas
acompanhando sua performance
enquanto ele desenha no céu
... um  arco dourado  
... o horizonte é a corda
e o meu olhar é a flecha!

08/04/16


domingo, 7 de abril de 2019

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PAPO DE DOIDO 



Há palavras que nos engolem de uma tal forma, que já não sabemos mais onde termina nossa individualidade e começa 'a coisa' - a qual nos tornamos, sob sua influência.


Vou tentar explicar.  Hoje, fui fortemente influenciada pela palavra 'vaivéns', terminei por me ver transformada nela, a palavra em si, em letras maiúsculas e grossas, garrafais.  Uma cobra de duas cabeças, uma em cada extremidade, sem rabo ou cauda, capaz de andar para os dois lados.  Pude até sentir, as minhas células humanas, com muitas membranas vibrando - enquanto  eu era as letras que formavam a palavra.  Tinha assumido a sua forma escrita, e à ela tinha cedido as minhas propriedades vitais.

Isso é papo de doido!

Foi isso que aconteceu, eu alterei temporariamente a minha forma, sujeitando-me à ideia, dessa vez sem grande prejuízo para meu equilíbrio físico e emocional, pois com a mesma rapidez e facilidade com que me transformei nela, eu retornei à minha forma normal.

Dessa vez, foi assim.  Em outras, eu me permito passar por metamorfoses não tão agradáveis, que chegam a ser danosas à minha saúde, deixando-me com uma sensação de que alguma coisa pode ter alterado o meu dna.

Eu fico a pensar: a palavra em si, é fria, sou eu  que empresto a ela, uma emoção que é minha.  É nesse momento, que eu me deixo ser deglutida, goela abaixo, ou eu que a engulo, não sei.  Tanto faz, de qualquer maneira, minha identidade, já está ameaçada - como uma mono-ideia, que me arrebata.  Num primeiro olhar, é o que me ocorre.  Eu percebo que, ao retirar a minha emoção, ela volta a ser fria e vazia como antes, uma simples palavra - um conjunto de letras.

Eu me faço a pergunta: a quanto de passividade de minha parte, devo responder!?  Porque nenhum processo desse tipo se dá à minha revelia.

Quanto a questão sobre:  'quem engole quem?' ... não cheguei a conclusão alguma.

07/04/18

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PERSONA

É preciso muito empenho pra se matar um amor
são necessários muitos e muitos golpes ...
doses diminutas mas constantes
aplicadas por muito tempo!
Ele não morre tão fácil
só mesmo o egoismo
é que pode fazê-lo!

Quando não houver espaço dentro de si
pra alguém que não seja a si próprio
... nessa 'persona' tão cheia de si
então ... não haverá lugar
nem mesmo um canto
que possa caber
uma outra
pessoa!

07/04/16
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PRESENÇA AUSENTE

Tocara seu corpo ...
sequer roçou-lhe a alma!
Enchera seu estômago ...
entretanto ...
ela padecia de sede e fome!
Tivera muitos casacos ...
sem sentir-se aquecida!
Estivera ao seu lado ...
no entanto ... sempre
só encontrou ausência
em sua presença!
07/04/16