segunda-feira, 5 de março de 2018
VIDA E HISTÓRIA
629
Eu vim do passado. Sou viajante do tempo. Já estive em dois úteros.
No primeiro, ainda não era eu, era metade de mim (em potencial), uma parte do que viria compor a minha carne. Já estava lá, no útero de minha avó materna, enquanto este abrigava minha mãe já totalmente formada, com seus óvulos todos, dos quais - um daria origem a mim.
Olhando por esse prisma, cada um de nós se torna também, um viajante que veio do passado.
É certo, que se uma parte física de mim, dormiu por algum tempo (por mais de vinte anos) ... algo mais dormiu também, dentro dessa mesma metade que ainda não era eu - e carregou toda uma história adormecida consigo, condensada em muitas impressões e informações, sei lá como? ... até que se juntasse à outra, doada por meu pai, que me tornou inteira e que carregava por sua vez, outra história peculiar - vindo juntar as duas partes, as duas histórias.
No encontro e da posse dessas metades, tornei-me eu mesma. Já não era mais uma ou outra, mas as duas juntas - um terceira ... vida e história.
sábado, 3 de março de 2018
NÃO É O TUDO
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| arte: sarah barwach |
não descreve o oceano.
As descobertas são infindas.
O céu não é um pano.
O oceano é profundo.
A Terra não é o mundo,
o universo é maçudo.
O homem não é o tudo.
Não vemos a matéria escura,
nem a energia obscura.
Não se deixam aprisionar,
o vento, o tempo ...
nem a força, em seu campo
... nos permite desacionar.
Nossos olhos,
não veem o que querem,
veem apenas o que podem.
Não passamos de pirralhos,
acreditamos numa estória,
... uma verdade transitória.
Não vemos a matéria escura,
nem a energia obscura.
Não se deixam aprisionar,
o vento, o tempo ...
nem a força, em seu campo
... nos permite desacionar.
Nossos olhos,
não veem o que querem,
veem apenas o que podem.
Não passamos de pirralhos,
acreditamos numa estória,
... uma verdade transitória.
O fim é só recomeço,
o erro é só um tropeço.
_________ Fernando ... sabe? O ‘Pessoa’!
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| arte: sarah burwach |
AS COISAS QUE ERREI NA VIDA
"As coisas que errei na vida
são as que acharei na morte,
porque a vida é dividida
entre quem sou e a sorte.
As coisas que a sorte deu
levou-as ela consigo,
mas as coisas que sou eu
guardei-as todas comigo.
E por isso os erros meus,
sendo a má sorte que tive,
terei que os buscar nos céus
quando a morte tire os véus
à inconsciência em que estive."
____ Fernando Pessoa (Novas Poesias Inéditas)
CEGUEIRA E FOME
627
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| arte: amanda cass |
Cada grito silenciado, é uma dor que engoliu a própria voz.
Uma entidade que não possui membros para gesticular e de cuja face, não se lembra mais, passando a sofrer de uma letargia. Só tem 'o sentir' - isso não consegue evitar.
Alguém com consciência, abandonado numa ilha, com outros tantos, como cabras cegas e famintas, pastando nesse solo onde nada cresce. Embora sejam muitas, não se dão conta da presença, umas das outras, porque estão cegas, porque trazem seus focinhos amarrados para não balirem, para morrerem. Não há barco, não há sons ... permanecem com fome, mas não morrem.
Ficarão guardados na areia dos espelhos - dentro deles - sem ousarem refletir à luz, um rosto inexpressivo ou mesmo de horror, porque julgam que não os têm, porque se esqueceram de como são.
sexta-feira, 2 de março de 2018
PORMENORES MAIORES
626
De pormenores menores
se fazem os dissabores.
Nos estertores dos valores
concretizam-se temidos temores
e se tornam as queixas maiores.
Ignoram os clamores
... somam-se os fatores
... uns e outros tremores
nos mudam os humores.
Roubam os odores
nos retiram as cores
e conhecemos as dores.
Nos queimam os ardores!
Inviabilizam amores
... sequer mandam flores!
quinta-feira, 1 de março de 2018
RE_EDIÇÃO
*PROSA*
29/02/16
"Sou uma flor de difícil cultivo. Uma espécie rara de orquídea falena. Meio flor, meio borboleta, meio metamorfose e muito sensível. Necessito de cuidados especiais: temperatura exata e lugar específico. Se me quiser precisará se dedicar. Não se preocupe, pois nem um esforço teu será em vão, já que aprendi a retribuir aquilo que recebo. Agora, se você quiser facilidade, desista da orquídea aqui e vá em busca de uma violeta qualquer, não precisa prodigalizar atenção comigo. Como deveria ter percebido, não sou como uma violetinha de R$0,85. Não desprezando, mas já fazendo, as violetas. Então, não me trate como tal, pois eu morrerei. Violetas são simplistas, preferência nacional, fáceis de se encontrar, não crescem muito, não exigem muitos cuidados e estão sempre em promoção. Se preferir tem também a Maria sem vergonha, conhecida como Beijinho por alguns. Essa floresce o ano inteiro, possui inúmeras cores e tem até de graça. Você escolhe, há uma infinidade de flores. Não se esqueça apenas de que eu sou uma espécie em extinção e de que flores não são todas iguais, cada qual com sua especificidade e qualidade!"
_____ Sofia Aimée
RE_EDIÇÃO
Clamor
03/03/17
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| arte: cecile veilhan |
Ouviste-me, enquanto eu atravessava os mares distantes?
Singrando as águas e a espuma que elas faziam? Viste?
De como cheguei às águas doces
... às suas margens?
Quando serpenteei rápido, com meu corpo frio
e me insinuei em ‘esses’,
sobre as areias farfalhantes,
sem quase tocá-las?
À noite, quando fiquei escondido e descansei
debaixo dos desertos
... dormistes também?
Sussurrei a minha mensagem,
querendo que o vento a levasse, por entre as folhas,
através da luz e escuridão das florestas
... confiei nele!
Esperei que ele roçasse o teu rosto e te contasse
das minhas promessas!
Cortei rasante, as campinas e sua vegetação.
Balancei o trigo nos campos e dancei com ele.
Apressado ... tranquilo,
uma grande viagem!
O vento, ou o próprio ar, diriam o mesmo
– que vim de longe, muito longe –
só pra dizer o que queres ouvir!
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