sexta-feira, 3 de março de 2017



395 _______________________________________  FRAGMENTOS 


cecile veilhan


Clamor


Ouviste-me, enquanto eu atravessava os mares distantes? 
Singrando as águas e a espuma que faziam? 
De como cheguei às águas doces 
... às  suas margens?

Quando serpenteei rápido, com meu corpo frio
e me insinuei em ‘esses’, 
sobre as areias farfalhantes,
sem quase tocá-las? 
À noite, quando fiquei escondido e descansei 
debaixo dos desertos 
... dormistes também?

Sussurrei a minha mensagem, 
querendo que o vento a levasse, por entre as folhas, 
através da luz e escuridão das florestas
... confiei nele!
Esperei que ele roçasse o teu rosto e te contasse
das minhas promessas!

Cortei rasante, as campinas e sua vegetação. 
Balancei o trigo nos campos e dancei com ele. 
Apressado ... tranquilo,
uma grande viagem!

O vento, ou o próprio ar,  diriam o mesmo
– que vim de longe, muito longe –
só pra dizer o que queres ouvir!



quinta-feira, 2 de março de 2017



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RE_EDIÇÃO






O incomensurável
01/03/16
   

O pensamento foi 'passear' - dar umas bandas! É o que ele faz de melhor...

Sem asas ou arreios, ele voa e galopa. Nem sempre me leva pra onde 'quero ir', mas me leva aonde lhe 'peço pra ir'.  Me faz pensar que sempre me leva aonde 'preciso ir'!


Não tem tempo ruim, estrada difícil, ou pernas cansadas, (ele não as tem) está sempre disposto a 'viajar'.  E como 'divaga' esse bichinho!  

Às vezes me pergunto:  porque é tão volátil?  Como foge à lei da gravidade e a outras tantas! De que matéria é feito? Não existe barreira capaz de detê-lo: tempo, espaço? ... Nenhuma!

Obedece sempre à geometria invisível do universo!  


A mim, me parece que age pela atração ou repulsão de uma ideia ou coisa ... e o meu entendimento chega até aqui!



Fragmentos 394





Aos desavisados  


Os olhos de rapina bicam
mas é a boca hipócrita que fere!

O coração despiedado excluiu a si!
No lugar do que deveria pulsar
... vive algo que arrulha!

Carrega na mente enferma
uma dor que não quer ver
uma sombra da qual teme
e de temer, ela se agiganta!
E que culpa temos nós?
Todos têm suas dores
cada um sabe da sua!

Está sempre a sofrer e por isso
da rua, faz uma viela estreita?
Traz um veneno, sempre a espreita!
Vem aninhado em algum lugar
o escorpião enrolado em si!
Que se vinga não sei de quê!

Aviso que é preciso
se precaver quanto a isso!
Como se livrar do perigo ... da fúria?

Vá o mais longe que puder!
Só quem recebe a picada
sabe a sua intensidade
que se não mata, pode incapacitar!

Aos desavisados ...
preparem seus escudos e armas
porque estamos em guerra!





quarta-feira, 1 de março de 2017


Fragmentos 393




Por favor, parem esse barulho!

Meus ouvidos não suportam tanto barulho.  Além de um certo limite, deixo de ouvir meus próprios pensamentos. Tento concatenar as ideias, mas elas não tem mais voz, não são mudas, mas só se expressam através de gestos, que eu não entendo.


Fazem sinais desesperados, não sei se me perturbo mais por não escutá-las ou se por não entender o que me dizem por gesticulação.  Elas e eu sabemos que devo parar o barulho que vem de fora, porque o interno já é grande o bastante!





Fragmentos 392








"A dois passos ..."   

Tenho um desejo incontrolável de rodar o guarda-chuva apoiado em meus ombros.  Quando criança, não podia fazer isso - me diziam que não prestava, dava azar - nunca entendi por quê.  E até hoje, não entendo, não faz o menor sentido, deixar de rodar o guarda-chuva, por conta de algum mal que pudesse acontecer – a mim, ou a alguém da minha família.  Talvez fosse, o perigo de furar o olho de alguém com suas ponteiras, ou machucar a minha pele, caso tivesse alguma rebarba de metal.  Hoje, eu rodo quantas vezes eu quiser, e sempre me lembro daquela vontade reprimida – por nada. 

Um dançarino de frevo rodaria – é o que ele faria antes de uma apresentação.  Embora eu nunca tenha dançado frevo, tenho ao menos a vontade do bailarino, de rodar o guarda-chuva sobre meus ombros.

Frevo, uma das danças mais difíceis.  Imagino que deva ser – 'dançar' - e ainda dançar com as pernas flexionadas?   Seria um derivado de uma tortura russa?  Ao que se sei – existe tortura chinesa, mas russa? ... Certamente, há muitas torturas, de todas as nacionalidades, de todos os tipos.

O mais próximo disso que conheço é de ‘pular miudinho’ ou de ‘cortar um dobrado’ – isso, eu faço, e muito!  Talvez dance o frevo sem o saber!  Um derivado do derivado de uma tortura russa!?

Sabe aquela situação em que eu mesma me coloquei?  Se me perguntassem antes, se eu queria dançar essa dança – eu responderia com um sonoro 'não'!  Mas cá estou, dançando a música que vem de fora, a passos forçados, apesar de cansada, parecendo uma marionete e encenando um 'sim'.

Danço sim – um derivado do derivado de uma tortura russa – faço isso sem guarda-chuva, sem colorido e sem vontade ou disposição.

Sempre a ‘dois passos do paraíso’ - sem conseguir adentrá-lo!  Esse seria meu refrão!


Caso eu prefira uma música das minhas – só mesmo com fones de ouvido.  Sem eles, o ritmo é outro - sem me perguntarem se gosto, se quero - a marionete se põe a dançar, sem me aperceber disso!




  Fragmentos 391





Legado e herança    

Os homens colonizam as terras e as mulheres, tomam posse delas e nelas semeiam – fecundando-as.  As terras, eles fazem produzir.  Nas mulheres, eles esperam que brotem as suas sementes – deixarão a sua descendência à posteridade, para que possam garantir a posse da mesma terra, quando não puderem mais garantir por eles mesmos, depois de mortos.

Quando os homens não gostam de suas plantações, por um motivo ou outro, eles as mandam queimar.  Podem também renegar a semente colocada no ventre da mulher, quando não gostam do que colhem.

A terra é sempre mãe – da colheita rejeitada pelo homem, ela poderia muito bem, oferecer aos animais pequenos e grandes, para que se fartassem dela.

Da semente que cresceu em seu ventre, a mulher é terra também – não renega o que nutriu – sabe que o seu fruto será útil à humanidade,  servirá aos homens, independente do que venha se tornar, será sempre 'aquele' que poderá fazer a diferença, com suas ideias e sua contribuição única para a humanidade.




Fragmentos 390






Terra-lua-sol




Cabeça na lua e pés na terra!
Da lua ao sol outra viagem!
Banho de luar e sol!

Pra se chegar ao mar
é preciso transpor os rios
- dentro de margens definidas -
alteradas pelas chuvas 
ou pela falta delas.

Primeiro, vamos nadar neles
para dissipar o medo
depois enfrentaremos
os mares abertos!