PERMISSÃO PARA SER MAU
Há alguns anos (muitos, mais de 15) passei por uma dinâmica de grupo que me marcou.
A sala estava dividida em grupos, e os grupos iriam desenvolver um projeto de marketing. Fui falar sozinha com um dos orientadores, e ele, sussurrando, me orientou a SABOTAR o grupo. Essa era a minha tarefa – fazer com que o projeto fracassasse. Voltei para a mesa meio chocada.
Ele queria que eu… sabotasse os outros? Atrapalhasse? Fosse … MÁ?
Aquilo me deixou zonza.
No começo eu fiquei nervosa, mas depois entrei no espírito da coisa. Porque eu TINHA PERMISSÃO. Eu tinha ganhado um indulto para me comportar mau. Não haveria consequências, ninguém iria se ferir de verdade – era só faz de conta.
E, gosh, como eu fui má!
E foi a experiência mais LIBERTADORA da minha vida.
Não lembro pra que era a dinâmica, qual era a empresa nem nada e não importa; essa experiência foi mais importante do que qualquer trabalho.
As pessoas em volta me desaprovavam, me agrediam, desgostavam de mim…. e pela primeira vez, EU NÃO ME IMPORTAVA!
Só muito tempo depois é que fui analisar o porquê da experiência ter significado tanto, ter me feito sentir tão bem.
É que ser BOM é um peso muito grande.
Nós crescemos aprendendo a respeitar os outros, a ser leais, não ser desonestos, a nos preocuparmos com os sentimentos dos outros… e alguns de nós LEVAM isso a sério.
Fui criada para pensar nos outros, e quer saber? IT SUCKS! (algumas vezes)
Porque nem todas as pessoas levam isso a sério, ou se preocupam com você. Nem sempre é recíproco. Não existe só gente de bom caráter no mundo. Não estou dizendo que eles são MAUS – a pessoa não precisa ser má pra ser mau-caráter.
Até esse dia, eu tinha essa obsessão em ser boazinha – mesmo que fosse às minhas custas. Minha mãe e minhas tias tinham (ainda têm) uma frase sobre mim que é típica “se alguém não conseguir se dar bem com a Elise, não consegue se dar bem com mais ninguém“. É que elas me amam 

Mas a verdade é essa – apesar disso, as pessoas às vezes NÃO SE DÃO COMIGO. Não é estranho? Isso começou a me soar como um aviso de que ser muito bonzinho o tempo todo não era à prova de falhas. Não era garantia de não ser sacaneado, ou de todos gostarem de você.
Então, a partir desse dia, eu rompi com a prisão da “bondade a todo custo“. De repente, eu não fazia mais tanto esforço pra agradar quem eu achava que não merecia. De repente, eu parei de insistir em pessoas e relacionamentos. De repente comecei a achar que a pessoa em que primeiro tenho que pensar, sou eu. E se começa a me desagradar, se chega no meu limite, no que considero intolerável, caio fora. E aí passei a ser conhecida por outra coisa (uma bem menos elogiosa): eu DESLIGO PESSOAS. Eu as faço “desacontecer”. Sem dó – seja amigo de longa data, namorado, parente… Esqueço tudo, como se elas não existissem mesmo.
Puxa, como sou criticada por isso! Mas tudo bem. Se fosse em outros tempos, isso iria me matar. Mas agora está tudo bem porque EU ME DEI permissão. Persmissão pra achar ruim, permisão para dizer: “você não me interessa mais como pessoa. Próximo!“. Sem remorso. Eu faço o que acho certo, e se acho que a pessoa não vale a pena… vira história.
E as pessoas acham isso ruim!
Aí comecei a perceber outra coisa – as pessoas que criticavam essa minha “dureza” ao cortar pessoas, não eram necessariamente as melhores pessoas do mundo. Algumas passam a vida sendo maus amigos, maus parentes, ou simplesmente NEGLIGENTES. Mas não têm peito para CORTAR ninguém. Ficam posando de bons para a sociedade, enquanto atuam em relacionamentos desonestos ou falidos… mas todos em volta acham que eles são bons.
Prefiro ser boa de verdade com quem merece, e dura de verdade quando necessário. Acho mais honesto.
Melhor ser um pouco honestamente mau, honestamente egoísta, do que ser desonestamente bom.
Seja um pouco “mau”. Um pouco cada dia. Liberte-se do sufocamento da necessidade de ser bom.
O bom e o mau se equilibram, se balanceiam, são necessários um para o outro, como a luz e a escuridão.
Seja um pouco mau às vezes, para poder ser genuinamente bom nas outras.
